por Junião

Alguns anos já se passaram, mas constantemente os detalhes daquele momento ainda surgem fortes em meio aos meus atuais pensamentos. Lembro-me como se fosse ontem e aprendo cada vez mais com a construtiva experiência de difícil descrição. Era uma deliciosa e quente sexta-feira de primavera e eu pilotava feliz por uma movimentada avenida de Araraquara minha imponente 750 cilindradas importada. A cabeça estava em êxtase e os planos eram muitos. Bares com a agitada turma de amigos, show de rock, mais bares, motel com a namorada e assim por diante. A noite seria curta para tanto idealizado. Os meus planos eram vários, mas o do destino era um só e bem diferente. E, feliz ou infelizmente em certos casos, é o plano dele que sempre vale. Nós somos nesse mundo, como eu mesmo já escrevi em outro texto, somente meras marionetes num passageiro palco chamado Terra. Meras marionetes que podem sim ter movimentos próprios, mas que jamais entrarão ou sairão do show por própria decisão…
O dia havia sido muito cansativo rodando pelas perigosas estradas. Para desespero do sanguinário patrão o faturamento da gigante empresa estava caindo e, consequentemente, as cobranças ao departamento de vendas onde eu atuava se tornando cada vez mais insuportáveis. O sistema capitalista e consumista atual criado por nós é cruel em aspectos diversos. Para que o corpo tenha seus mimos e regalias materiais, a alma deve ser sacrificada diária e lentamente. Sacrificada por estranhos que pouco dão em troca de muito. Antes da tal experiência eu havia passado pela casa da minha filha, na época com dois anos. Brincamos bastante até que ela dormisse. Para felicidade e eterno agradecimento a Deus minha ex-mulher e seu novo marido, maravilhosas pessoas, sempre abriram confiantemente a porta da casa deles para que eu pudesse ser “pai”. Aquele pouco tempo infantil juntos havia sido, até ali, o alívio para o terrível interminável expediente.
Mas os problemas estavam guardados no escritório para serem revistos somente na segunda, o negócio era se divertir e curtir a vida. E exatamente atrás disso que eu ia alegre quando um carro cruzou direto um sinal de pare bem a minha frente. O motorista, um jovem de uma pequena cidade vizinha, confundiu-se com a má sinalização e atingiu-me diretamente, sem chance de desvio. Foi tudo rápido demais e nem mesmo os pensamentos conseguiram agir. Coisas ruins normalmente são assim. Apesar da minha velocidade estar de acordo com o permitido para o local, o impacto foi muito violento. Eu nunca abusei pilotando nada, mas o peso da grande moto contribuiu para os igualmente grandes estragos gerais.
Fui arremessado vários metros adiante e caí de costas no asfalto. A batida forte com a cabeça no chão desacordou-me por alguns instantes, mesmo com a proteção do caro capacete que eu usava. Eu não sei descrever ou explicar exatamente para onde fui nesse período fora do ar, só tenho certeza que não voltei de lá o mesmo em termos “espirituais”. Ao meu particular ver várias melhoras ocorreram. Pena que só ao “meu ver”, pois nunca consegui explicar, muito menos convencer ninguém sobre o que acontece quando a temida morte de repente bate a nossa porta sem prévios avisos. E isso pode ser com qualquer um, ainda hoje.
Recobrei a consciência ainda deitado no chão, rodeado por centenas de pessoas e com os valorosos profissionais do resgate imobilizando meu pescoço enquanto acalmavam-me. As sensações de impotência, de fragilidade, de medo geral, de reavaliações imediatas, de vontade de chorar e de desespero total entrelaçavam-se em minha mente como um formigueiro alvoroçado. “Por que comigo”, questionava eu para eu mesmo ou para alguém superior qualquer, de quem não ouviria a resposta. Não ouviria como gostaria, tampouco ali naquele momento confuso. Tudo foi acontecendo ainda dentro da ambulância rumo ao hospital, com a estridente sirene como fundo musical.
Passado o susto e, graças ao Todo Poderoso verificada a não seriedade dos ferimentos, a rotina foi voltando ao normal. Mas nunca mais como o normal até ali conhecido…
Os dias foram se seguindo e eu, felizmente, fui naturalmente enxergando todas as situações do dia a dia com mais simplicidade e calma. Vinham em minha cabeça, com a naturalidade acima citada, flashes do acontecido, seguidos por ensinamentos pessoais. Era como se eu estivesse sendo avaliado num tipo de vestibular, após uma magnífica aula particular.
Eu percebi que cometia o engano terrível que muitos também cometem sem perceber que era pensar que comigo jamais aconteceria. Entendi que estamos todos diariamente sob regência exclusiva dessa tão temida e enigmática morte. Em suma, tudo que pensamos possuir não é realmente nosso. Nem mesmo o corpo, pois eu poderia ter perdido um braço ou perna, poderia ter terminado numa cadeira de rodas e tornado-me dependente da eterna caridade alheia, nem sempre tão sincera quanto demonstrada. Qualquer um desses fatos teria redirecionado totalmente minha forma de viver. Mas o que mais me cobrava era a clássica: eu poderia ter… morrido. Poderia ter morrido e hoje seria somente uma breve lembrança em alguma das muitas festas que por aqui continuariam a acontecer. O tempo não pára por nada e o mundo não muda por ninguém. Ninguém é e nem jamais será insubstituível…
Eu fui entendendo posteriormente que minha imponente moto importada de 750 cilindradas não iria comigo, para onde quer que eu fosse. Eu vi que não significava nada para a empresa e não passava de uma porcaria de número no gráfico de alguma maldita tela de computador em alguma maldita sala chique. Tanto que eles nem se preocuparam com o fato e comigo. A alta diretoria já estava, inclusive, procurando substituto para o caso de eu não ser mais viável e lucrativo. Essa é a triste realidade nos altos empreendimentos.
Sua posição profissional é muito importante para proporcionar as regalias materiais mencionadas, mas não espere muito do seu trabalho além das cifras ao fim do mês. Ele não estará com você se um dia precisar de verdade ou tornar-se “inviável”. Os amigos sim estarão, não importa quantos sejam. Apesar que diante de alguma terrível enfermidade, muitos dos que pensamos ser eternos companheiros também somem como água escorrendo pelas mãos.
Os dias foram se seguindo, levando-me a certos – muitos – redirecionamentos de rumos em âmbito geral. Literalmente tirei a camisa da empresa em meio a uma tensa reunião e abandonei tudo sem sequer olhar para trás. Claro que rotularam-me imediatamente como louco e inconsequente, entre outros adjetivos severos, mas eu fiz de forma consciente. Não há futuro bem planejado se o presente não for respeitado em termos de bem estar “real”. Não há pé de meia que recupere o tempo e que cure as iminentes doenças resultantes de se fazer sempre o que não se queria fazer de verdade.
Uma gorda poupança e um bom plano médico logicamente podem ajudar no futuro, onde a velhice vai consumindo minuto a minuto a olhos vistos. Mas não pensem que isso “salvará” de verdade, pois no caso acima já citado de uma irreversível enfermidade, tudo acumulado durante a vida toda vai literalmente para o buraco e as cláusulas obscuras dos planos hospitalares surgem do nada para apenas aumentar o sofrimento. O que tiver que ser, será. Não importa por quantos “papéis” estivermos suposta e enganosamente protegidos. Daquele dia em diante, onde me foi dada uma nova chance, eu comecei a trabalhar somente em lugares menores e mais dentro dos meus ideais e vontades, lugares onde os homens ainda mandam mais que os computadores. Fui barateando meu custo de vida e o trouxe ao mínimo possível, pois entendi que gastar nada mais é que um vício em casos múltiplos. Quanto mais se tem, mais se necessita ter e decorrentemente mais se consome sem necessidade. De uma forma geral venho desde aquela sexta-feira simplificando minha vida sem medo algum do amanhã, já que essa tão esperada dádiva pode não vir. Devemos sim trabalhar e produzir, mas tudo dentro de um prazeroso limite saudável e nunca a mais do que o básico para se viver em paz com a própria alma. Devemos sim olhar para o amanhã, mas nunca com a “certeza total” de assistir um novo nascer do sol no horizonte. A certeza desse privilégio não foi e não será concedida a ninguém.
Eu jamais acreditei em acasos, acho que todos os acontecimentos têm seu prévio propósito lógico. Por isso algumas facilidades proporcionadas pelo infalível destino deram-me a chance para concretizar alguns sonhos até então supostamente irrealizáveis. Comecei a desenhar e escrever sem parar, minhas paixões desde a infância as quais eu não podia por em prática pois nunca tinha tempo para mim mesmo. Comecei a abandonar os insuportáveis sapatos apertados e substituí-los cada vez mais pelos confortáveis chinelos de dedo – inclusive de cores trocadas para enfatizar que podemos e até devemos ser como quisermos. Ser diferente, principalmente nos mínimos corriqueiros detalhes, não é uma contravenção como se diz por aí, é na verdade um dom…
Com esse dito tempo maior para comigo mesmo produzi, junto com grandes amigos, uma revista de humor. Isso também era sonho até então engavetado por total falta de momentos pessoais. Escrevi dois livros, sonhos ainda maiores concretizados a partir do momento que tive “tempo” para ver que tudo era possível. Comecei a colaborar constantemente com sites especializados em literatura e isso gera cada vez mais adeptos fiéis. E não existe nada mais gratificante para quem cria do que receber elogios sinceros. Em resumo: comecei a viver cada vez mais ao meu próprio modo, e assim continuarei. De alguma forma me foi ensinado que não somos corpos físicos que às vezes têm experiências espirituais, somos na verdade espíritos vivendo por aqui uma breve experiência corporal. Por tal, dentro das devidas responsabilidades aqui ainda exigidas, eu particularmente quase nada “levo a sério”.
Logicamente eu não sou hipócrita e sei da necessidade de se ter um pouco do maldito dinheiro no bolso. As deliciosas cervejas que tanto aprecio, por exemplo, custam e os comerciantes não aceitam filosofias baratas como pagamento. Eu sei disso. Mas agora sei também que não preciso nada mais além do necessário para viver muito bem. E exatamente essa “quantidade necessária” determinada por cada um é que deve ser respeitada. Apesar do sistema ser assim, não é correta a associação direta entre respeito e bens materiais. Assim como é um erro de imensas proporções a ligação entre poder financeiro e felicidade. Se isso fosse fato real não aconteceriam tantos animadíssimos churrascos improvisados nas lajes das miseráveis favelas. Assim como se a suposta imprescindível ligação do sorriso com a carteira fosse mesmo verídica, não ocorreriam tantos suicídios nas altas classes sociais. Felicidade de verdade é muito mais decisão que situação. Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar o “meu mundo”. Por tal prefiro ser lembrado, quando já ausente, pelo que fui e não pelo que tinha…
Claro que essa simples nova forma própria de enxergar e viver, a qual venho naturalmente desenvolvendo desde o acidente, muito tem gerado e muito mais ainda vai gerar em termos de “rótulos”. Louco, alienado, irresponsável, vagabundo etc. Adjetivos metralhados principalmente pelos mais próximos. Mas até isso pouco significa para mim. Rótulos fazem e farão parte da vida das pessoas para sempre. Eu não me incomodo com o que pensam e dizem, pois não posso controlar tais levianos julgamentos. Há muito eu também comecei a preocupar-me só com o que “eu” posso direcionar. Mesmo porque não importa como se viva, seu jeito sempre vai estar errado aos olhos de quem possui facilidade para julgar precipitada e severamente. Talvez muitos inquisidores tenham, na verdade, certa inveja bem maquiada e guardada no escuro fundo dos seus interiores. Mudar a própria vida e quebrar regras desnecessárias certamente é vontade unânime, mas a coragem exigida deve ser maior que o medo das opiniões alheias…
O sábio Criador não deu a nenhum dos mortais o poder para ver o futuro. Mas imaginem que isso fosse possível e que, através desse poder, soubéssemos o exato dia das nossas mortes. Imaginem quantos conceitos estúpidos viriam abaixo exatamente pelo tempo não mais desperdiçado com idiotices. Certamente pensaríamos, de acordo com cada caso em específico: “nossa, minha partida já é no ‘próximo ano’, portanto preciso aproveitar ao máximo”.
Imaginem quantas coisas não valeriam mais a pena… Imaginem quantos patrões demoníacos seriam antecipadamente mandados para os quintos dos infernos… Imaginem quantos casamentos desastrosos nem chegariam a acontecer ou quantos outros com as “pessoas certas” poderiam acontecer antes que fosse tarde… Imaginem quantos perdões sinceros seriam pedidos antes que também fosse tarde demais… Imaginem quantos “eu te amo” seriam ditos antes que o tempo se esgotasse e assim por diante.
Imaginem, amados amigos e amigas, imaginem quantos pensamentos e atitudes seriam diferentes e bem mais leves diante da iminente contagem regressiva. Agora imaginem, com calma e com suas cabeças nos travesseiros, que a temida “partida” pode realmente ser no próximo ano. Ou até antes…
Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar o meu mundo. Talvez a segunda chance a mim concedida naquela sexta tenha o propósito de poder dizer tudo isso a quem quiser experimentar também repensar seus valores e reavaliar os sentidos dessa vida, sem ter que vivenciar experiência quase fatal. Algumas crianças tornam-se rapidamente supostos poderosos e arrogantes homens abastados. O que esses “poderosos” não compreendem é que em breve podem estar de volta ao estado infantil, totalmente dependentes dos alheios até para as “novamente trocas de fraldas”… Então, diante do óbvio, porque levar tudo tão a sério e fazer do viver um calvário pavimentado com imposições tolas?
Abraços e que Deus ilumine a todos.
Dedico esse texto, que foi o meu último, à minha infelizmente infeliz mãe. Uma pessoa amarga que arrastou-se por toda uma indesejada vida, sem coragem para mudar seus rumos nos necessários momentos. Uma pessoa apegada ao material, que faz da religiosidade extrema e nociva sua mais poderosa arma para julgar sob rígidos critérios e punir qualquer conceito contrário ao seu próprio. Uma pessoa que nunca pôs seus sonhos em prática, pois jamais foi capaz sequer de sonhar. Por tais desnecessários tristes atributos, hoje só faz por tentar destruir com pesadas críticas os que ousam buscar a felicidade pessoal através da simplicidade. Junião.

Postado em
Textos 
Tags:
Junião,
Textos