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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte – “Só mais um pouco”)
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Gambar era o nome do pequeno inferno, equivocadamente denominado restaurante, para onde fomos induzidos pelo carioca salafrário a almoçar. Reparem que bem pouco apropriada a razão social, pois Gambar lembra muito gambá. Aliás, a cozinha também lembrava, literalmente pelo cheiro… Mas não poderíamos mesmo esperar muito da indicação vinda de alguém que já tinha nos proporcionado um passeio nas águas quase tão horripilantes como as do Barqueiro da Mitologia Grega.
A princípio foi difícil até saber se o local era um restaurante, borracharia ou ponto de chapa. Um barraco improvisado tipo favela, gaiolas e restos de bicicletas enferrujadas jogadas nos também somente restos de telhado, predominância até cômica de sujeira e lixo por todos os lados, óbvia falta de licença sanitária afixada na parede, mesas e cadeiras encardidas espalhadas sem critério de disposição e vários outros nojentos adjetivos os quais prefiro não citar para eu mesmo não relembrar – principalmente no único banheiro sem porta, onde viviam felizes bactérias bem nutridas de quase dois quilos cada uma.
Esperamos uma cozinheira obesa e tão encardida quanto as próprias mesas terminar uma feroz batalha braçal contra um gato horroroso que tentava carregar um peixe da dispensa e pedimos algumas bebidas. O menu era um só e estava rabiscado nos azulejos imundos, junto a outras estranhas frases de ofensas a clientes problemáticos que provavelmente já haviam dado trabalho no estabelecimento. Claro que era mais fácil traduzir hieróglifos do antigo Egito que entender a caligrafia das frases. Apesar que nem foi necessário decodificar nada, já que não havia opção além de macarrão, feijão, quiabo e peixe. Certamente o cardápio mais sem nexo do Sistema Solar. Principalmente porque o peixe também parecia ter vindo diretamente da Mitologia Grega, pois tinha um monte de cabeças. Só tinha cabeça! A propósito, o dono da boca de porco, o “cumpadre” do maldito capitão Nersinho, não se encontrava presente para nos recepcionar, pois estava em companhia de uma chipanzé na Mata Atlântica, uma linda macaca com quem ele mantinha diariamente tórridas relações sexuais. Amor selvagem de infância e antiga relação marital.
Panças cheias – de lixo – e lá fomos nós de volta à Ubatuba. E, como diria o louco Zagallo: “aí sim fomos surpreendidos novamente”… O coitado do Fiat 147 não aguentou o tranco e o câmbio estourou. Perdemos a segunda e a marcha ré em pleno movimento infernal de carnaval. A segunda até que dava para dar um nó judiando do giro do motor, mas a ré é imprescindível em qualquer veículo e, por tal, nos fez passar muita vergonha (mais ainda) em certos momentos. Não se pode andar só para frente nesse planeta. Até mesmo andarilhos de beira de pista andam para trás de vez em quando.
Nesses momentos é que a criatividade rural entrava em jogo. Um de nós pegava a jurássica máquina fotográfica e os outros se posicionavam lado a lado para um falso retrato com as bundas encostadas na parte frontal do capô. Levemente, sem alardes e com sorrisos estúpidos nas caras empurrávamos o carrinho só com as pernas, até uma posição de saída para frente. Manobramos dessa forma em postos de combustíveis, estacionamentos nas avenidas beira mar e diversos outros points. Fizemos isso várias vezes nos dias que por lá ainda ficamos e nenhuma das lindas mulheres com as quais continuamos a nos encontrar percebeu nosso problema mecânico. Claro que não perceberam, pois nenhuma olhava para nós.
E assim belos e lindos momentos se passaram. Rolaram mais alguns imprevistos como beber água de côco que na verdade era de torneira – fomos novamente enganados num quiosque periférico – e uma quase briga com dois mulatos enormes que não gostaram de uma inocente brincadeira feita pelo Binga. Os dois caras juntos tinham quase cinco metros de altura e pelo menos trezentos quilos, além de serem mestres em Muai Tai Shin Shuai, categoria “Kno Ksu Kau” – furiosos demônios lutadores, arrancadores de cabeças, moedores naturais de ossos, destruidores de lares felizes, fazedores de viúvas, multiplicadores de órfãos, distribuidores de dor e apreciadores do sacrilégio alheio.
A volta para Araraquara deu-se de forma ainda pior em virtude do problema no câmbio, principalmente na subida da serra. Tínhamos que quase explodir a rotação do velho motor ao máximo em primeira e depois passar direto para terceira. Era um urro insuportável junto a muita fumaça e em seguida um “uommm uommm uommm” bem lerdo. Por várias vezes o carro quase engoliu o ronco e começou a descer na contra mão. Por isso mesmo, apesar do trânsito muito intenso, por onde nós passávamos não ficava ninguém perto. Num raio de cem metros para frente e para trás só dava a “Família Buscapé Araraquarense”.
Por mais incrível que possa parecer nós voltamos várias vezes com o mesmo pau velho para a mesma Ubatuba. Alguns amigos novos como Tico Preto e Lemão Dentão se revezaram e também participaram das outras empreitadas, igualmente repletas de imbecilidades e cafonices. E ele, o Fietão 147, apesar do conforto zero e segurança nada, nunca nos deixou na mão. Foram muitas mais reais provas da existência de Deus.
Em breve contarei a linda façanha do pai do meu cunhado que, em virtude do alto teor etílico, viveu feliz por muitas horas na casa de um vizinho, certo que estava na residência dele. Imaginem o tipo, simplesmente errou o endereço e não percebeu… Abraços e até breve. Junião.
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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte Final)
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Éramos realmente muito imbecis em todos os aspectos, tanto que não sabíamos nem mesmo da existência de um grande posto da Polícia Rodoviária Federal, na divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Fomos parados numa blitz e as palavras do militar vieram do fundo da alma: “Santa Mãe de Cristo… Vocês só podem estar de brincadeira comigo!” Isso “só″ porque o carro era desgraçado como já descrito, sem nenhum item de segurança, nós descalços e sem camisa, estávamos bêbados da noitada anterior e ainda bebendo na pista – inclusive jogando as latas vazias pela janela – e demais afrontamentos contra várias regras e qualquer bom senso social. Não tínhamos sequer um maldito selo pedágio colado no vidro dianteiro, obrigatório na época. Aliás, mal tínhamos vidro.
Após uma breve negociação sem nenhum argumento lógico com um bondoso tenente, o cara nos liberou por pura piedade em meio a mais palavras diretas: “Eu não vou acabar com o fim de semana de vocês se cumprir severamente a lei, vou acabar com o ‘meu’ fim de semana, com meu mês e até meu ano! As canetas da base não serão suficientes, tampouco os blocos de multas! Desapareçam da minha frente já, estúpidos do mato, e cuidado com uma cachoeira linda que tem ali na frente. Se esses dois gorduchinhos rolarem lá para baixo vai ser uma cruz para resgatar.” Os dois gorduchinhos eram Nizão e John. Inclusive isso continua assim até hoje.
Eles não capotaram lá para baixo como advertiu o bom policial, mas quase uma outra tragédia tomou o espaço. Realmente a cachoeira era linda e logicamente paramos para nos refrescar um pouco. Conhecer tudo era nosso lema. Lindo lugar, apesar da quantidade inacreditável de mosquitos borrachudos bebedores de sangue. Eram tantos que voavam até em formação de ataque aéreo e alguns mais pareciam beija flores de tão bitelos.
A cachoeira era realmente bem alta e perigosa, mas eu, idiota maior, mesmo assim parei próximo ao precipício com vontade infantil de mergulhar. Os meus queridos amigos, além de não me desencorajarem a fazer besteira, ainda por cima mentiram dizendo que muitos já haviam saltado lá para baixo, que era uma delícia e demais incentivos provocadores. Antes mesmo que pudessem mudar as frases, lá estava eu descendo como um cometa rumo ao desconhecido. Sim, desconhecido, pois ninguém ainda havia pulado coisa nenhuma. Por Deus deu tudo certo. Passado o susto dos mentirosos após minha heróica barrigada no fundo do poço a coisa virou festa. Todos, até desconhecidos, começaram a mergulhar também. Mas se a “poça” lá embaixo tivesse somente um palmo de água ou fosse lotada de pedras e galhos, eu certamente seria recolhido com uma espátula e voltaria para Araraquara numa caixa de sapatos – sapatinhos infantis…
Parati – RJ, outro lugar maravilhoso que nos saltou aos olhos caipiras. Mais mulheres maravilhosas por todos os lados, um mar de cor indescritível e linda arquitetura. Apesar que a arquitetura era o de menos para nós, ogros sem cultura. Como eu já disse a viagem toda era uma grande descoberta de tudo e, por tal, queríamos viver o máximo possível que nossas carteiras minguadas permitissem. Resolvemos em consenso abusar e alugamos um barco para navegar pelas belíssimas águas da região, águas lotadas de iates cinematográficos. O problema é que nos precipitamos na negociação e caímos facilmente na lábia de um carioca safado.
Eu mal tenho coragem de chamar nosso transporte de “barco”, em todo caso ele pelo menos flutuava. Se bem que para quem havia chegado até ali num Fiat escangalhado, aquela desgraça aquática estava bem compatível. Pequeno, feito de madeira que soltava farpa como porco espinho, coberto com uma lona de caminhão amarela indecente e tocado por um fundido motorzinho lazarento que soltava muita fumaça preta. Parecia uma queimada de cana em pleno mar enquanto navegava. Também não contava com coletes salva vidas nem outro item qualquer de segurança. Ou seja, um verdadeiro irmão marinho do nosso veículo terrestre. Sem contar que o lixo aquático estava amarrado a quase duzentos metros da praia e nosso capitão, um tal de “Nersinho”, nos fez ir a pé até ele. “Podem andar sossegados que a água só pega no queixo nesse trechinho”, disse o maldito. Só que ele mesmo, o guia turístico do inferno, passou por nós num caiaque e nos esperou enxuto na imponente embarcação. E mais sofrimento…
Nos ajudamos em conjunto e, apesar da dificuldade pela falta de escadinha, todos conseguimos embarcar; todos menos Nizão, o mais pesado e desajeitado. Ele grudou na proa e somente uma perna e um braço foram para dentro, o grande resto ficou pendurado no casco com ondas estourando nas costas largas. A cena mais parecia filme de terror nos oceanos, onde gigantescos monstros marinhos atacam embarcações com sede de destruição. O gordão urrava e balançava tudo nas tentativas de entrada e nós gritávamos desesperados em virtude do prematuro naufrágio eminente. Todos gritávamos, principalmente o “Capitão Nersinho”. Após o barquinho chacoalhar embicar na água como se fosse de brinquedo, Deus ajudou e o “Kraken Obeso” veio também a bordo.
Para quem não sabe o Kraken é uma apavorante e descomunal criatura da mitologia Nórdica que destruía caravelas sem maiores explicações e com fúria infinita. A propósito, perceberam que esses tais monstros das negras profundezas sumiram de cena há muito tempo? Talvez porque encarar as frágeis caravelas de madeira das suas épocas fosse mais fácil que peitar um atual poderoso porta-aviões nuclear Americano, armado com altos calibres até nos documentos. Nem monstros não são bobos…
E por falar em poderosos navios, partimos mar adentro naquelas absurdas condições mesmo. O duro é que passavam tirando fina de nós e sem nenhum respeito os iates cinematográficos já mencionados, com suas deliciosas tripulantes bebendo champanhe e trajando somente a parte de baixo de micro biquínis, e nossa canoinha balançava cada vez mais com as ondas fortes criadas pelos imponentes reis do pedaço. Parecia que estávamos num liquidificador. Rolou de tudo no micro cruzeiro de pangarés onde entramos como alegres passageiros e saímos sobreviventes traumatizados, mas no fim, com a graça de Netuno, tudo acabou bem, apesar do rastro de vômito múltiplo que deixamos pelo trecho percorrido.
No título eu disse que essa seria a parte final, mas tenho que continuar só mais um pouco em breve. Sim, preciso continuar mais um pouco, pois o tal carioca salafrário nos ludibriou ainda mais. Ele conseguiu nos convencer a almoçar no restaurante “de primeiro mundo de um compadre dele”. E nós, apesar da há pouco furada marítima vivida, aceitamos a sugestão. Tome mais fumo para os estúpidos do mato… Abraços e até. Junião.
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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte III)
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Estávamos em cinco nessa empreitada litorânea digna da Família Buscapé. Quatro de nós, apesar de cafonas, já havia visitado outras praias em viagens maçantes e cheias de regras com nossos pais; mas um da turma ainda era virgem no reino de Netuno. Um dos nossos só conhecia esses paradisíacos cenários através das inúmeras vezes que assistira A Lagoa Azul, com a estonteante deusa grega Brooke Shields – na época do filme muito “homenageada nos banheiros” do mundo todo, inclusive nos nossos.
Esse ser absurdo foi direto ao assunto conferir pessoalmente com a boca curiosa se a “lenda do mar ser salgado” era verdadeira. Entornou escondido um belo gole, ficou imediatamente roxo e tossiu como um cachorro sarnento por meia hora. Porém ele não parou por aí com o vexame público. Num outro trecho da imensa orla, na mesma primeira manhã, foi literalmente espancado pelas ondas. O lugar era chamado de “tombo” e o espertalhão percebeu rapidamente o porquê do nome. Ninguém se banhava ali, mas ele foi. Obviamente sozinho.
Dois passos com água até o joelho e de repente submergiu. Os braços pareciam periscópios. No que conseguiu retornar engatinhando, levou a primeira estalante “ondada” no lombo e fincou a cara na areia. Daí para frente foi uma impiedosa sequência de, literalmente, dar dó.
O tonto perdeu por completo o controle das próprias pernas em virtude da traiçoeira maré e não parava mais sequer em pé. E tome mais onda forte na nuca. É nisso que dá ser, até então, acostumado a nadar somente em sujas lagoinhas interioranas de água barrenta e parada. É fumo certo! Pena que na época não existiam celulares e câmeras fotográficas que também filmam, senão ganharíamos muita grana com as imagens da batalha do Príncipe Submarino Namor do Interior – “Bêbado” – contra seus próprios domínios. Muitos turistas que tomavam suas caipirinhas nos quiosques ali próximos se esborracharam em gargalhadas. Uma bela loira até vomitou de tanto rir. E nós nada pudemos fazer além de compartilhar a vergonha máxima. Mesmo com as tentativas de disfarce, o mundo sabia que estávamos juntos.
Apesar das nossas precariedades a rotina no camping seguia-se tão deliciosa quanto todo o contexto geral. Muita cerveja, rock e mulheres maravilhosas trajando micro biquínis por todos os lados. Tanto que nos empolgamos e registramos algumas “belas traseiras” com a nossa grande, barulhenta e jurássica máquina de tirar retratos. Registramos tão de perto que por pouco não fomos socados por namorados e maridos justamente enciumados e raivosos. Quase se inicia uma pancadaria generalizada de todos, até as nossas inadvertidas modelos, contra nós, os metidos a J.R. Duran – o eterno super fotógrafo da deliciosa Revista Playboy.
Mas não surgiram somente desafetos em nossos caminhos, fizemos várias boas amizades também. Inclusive com alguns senhores que haviam dado nó nas suas esposas e lá estavam curtindo a vida com adolescentes. Eles eram malucos, mas muito atenciosos. Tanto que o Binga rasgou o dedo ao tentar abrir uma maldita lata de apresuntado vagabundo e os caras prontamente fizeram o curativo. Mas fizeram o curativo com fita isolante, a tradicional preta e normalmente usada somente em fiação elétrica. Partindo daí imagino que se alguém de nós tivesse quebrado algum osso, eles certamente teriam engessado com asfalto.
Porém, apesar das maravilhas que a bela cidade de Ubatuba nos oferecia, queríamos mais. Queríamos desbravar e viver em cinco dias o que muitos não vivem a vida toda. Diz um ditado popular que “para quem está com catapora, uma bolinha a mais ou a menos não faz diferença”. Ou seja, já que tínhamos nos ferrado bastante até ali com aquele carro em petição de miséria, mais alguns quilômetros não seriam nada. Rumamos então, com um lindo nascer do sol como testemunha, para a também famosa cidade turística de Parati – no estado do Rio de Janeiro. Eu já tinha ouvido falar que uma situação ruim sempre pode piorar, só não imaginava que conheceria na prática e na pele tal sábio ensinamento… To be continued.
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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte II)
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
“Socorro!” “Por Deus, saiam da frente!” “Santa Maria, dessa a gente não escapa!” “Cristo misericordioso e libertador dos sofridos, ajude na próxima!” “Agora é o fim!” Essas frases, entre outras de súplica sincera, ecoavam dentro do apertado Fiat e misturavam-se ao som chiado do velho tape TKR cara preta que tocava Ramones, Sex Pistols, Iron Maidem, AC/DC, Judas Priest, Slayer e cia ltda.
Claro que um carro naquelas condições, sem sequer estepe, também não contava com um sistema de freio eficaz e em ordem. A direção então não tinha folga, tinha “licença premia acumulada de funcionário público”. Por isso os gritos acima descritos. Demoramos, mas acabamos chegando na famosa Serra do Mar. Só não sabíamos que a maledeta era tão inclinada e cheia de curvas tão fechadas que permitiam ver até a placa de trás do carro, sem ter que sair do besta. Foi terrível descer aquilo a bordo daquilo em meio ao assustador movimento na estreita pista simples. E tome mais perigosíssimas finas – nos outros – a beira do precipício. Por pouco não chegamos por atalho, rasgando no peito a mata atlântica ladeira abaixo.
Após o longo calvário asfáltico e de muitos mais sustos noturnos (sempre mais nos outros que em nós mesmos) na bela rodovia Rio/Santos, alcançamos o nosso destino: a maravilhosa cidade de Ubatuba. Logo na entrada paramos para pedir informações sobre a localização de onde ficaríamos, ninguém queria perder mais tempo rodando sem rumo. John Igor, com voz de urso do interior com dor de garganta, solicitou tal a um casal de namorados surfistas e lá veio a resposta idiota: “Pô, brother, é moleza. Tu saca a ponte após o ancoradouro? Tu manja a gruta do cascalho mole? Tu pode crê na pedra da Mulata doce?
Tu se liga no riacho do bagre da cara úmida?”
Antes mesmo que a moça continuasse, John, com toda sua meiguice, foi direto: “Ô biscate descabelada, se eu sacasse, manjasse, me ligasse e pode crê tudo isso não teria parado aqui para pedir informação. Vaca salgada!” E ela retrucou na lata: “Turma de rurais! Trouxeram frango caipira com farofa nesse bagageiro desgraçado e enterrado nos seus cérebros minúsculos e sujos de terra do sítio?” Saímos dali bem rápido para evitar linchamento por parte da galera das ondas, logo de cara. Mas John, com meio corpo fora do veículo em movimento prosseguiu: “Não tem frango não, mas tem galinha… sua mãe. Fumeira morfética!”. Por sorte não os encontramos mais pela orla marítima. Surfistas são muito unidos e certamente a coisa engrossaria para o nosso lado já bem grosso.
Havíamos fechado por telefone e pago adiantado uma arriscada transação com um camping. Mas a coisa era quente e o lugar muito bom e bem localizado. Montamos nossa grande barraca – também emprestada – com a mesma dificuldade encontrada na estrada até ali. Falta de experiência em tudo resulta em sofrimento desnecessário generalizado. Ainda estava escuro, já estávamos bem alcoolizados e, por tais dificuldades, era cano sobrando para todo lado e a lona indescritivelmente torta. A tarefa mais parecia um indecifrável enigma do antigo Egito.
Tudo montado – nas coxas – e lá foi Binga cuidar da instalação elétrica da nossa favelinha. Teoricamente era quem mais entendia de “luz”. A missão aparentemente era simples: só umas lâmpadas e uma tomada para o rádio gravador, mas sei lá o que rolou. Uma estrondosa explosão e um clarão enorme seguiram-se no poste central de energia e a força acabou em geral. Mas não somente no camping, e sim no litoral Norte todo. Porém, por estranha coincidência, somente nossa barraca ficou acesa…
Claro que isso chamou, de forma negativa, a atenção de todos os muitos outros turistas ali presentes. O lugar estava lotado ao extremo. Carnaval na praia sempre foi assim. E a coisa ficou desse jeito por um tempo: se nossa barraca ficasse abastecida por energia, todo o resto do planeta litorâneo ficava sem esse item essencial – escolas, hospitais, creches etc. Mas depois de mais alguns estouros, choques fortes e faíscas pirotécnicas, tudo deu certo.
Após os devidos acertos sob estridentes gritos de “burro” entre nós mesmos, muita cerva morna garganta abaixo e acomodação montada, descansamos só um pouco e voamos para a praia, a ansiedade por curtir não dava espaço ao sono. A essa altura o sol já estava bem forte. E foi lá, na linda areia branca contrastante ao exuberante verde mar, que percebemos porque a moça das informações desencontradas havia nos chamado de caipiras logo de cara e em poucos minutos de bate boca, sem ao menos nos conhecer.
Como o camping era perto do “fervo” e estávamos de saco cheio de ficar dentro daquela lata de sardinha com quatro buracos no teto, escondemos nosso possante para menos vergonha e saímos a pé para a balada. Vislumbramos o verdadeiro paraíso terrestre em poucos metros caminhados. A praia, os bares, os quiosques e o calçadão da famosa avenida beira mar estavam entupidos de gente. Gente bonita trajando caríssimas grifes por todos os lados. “Point de playboy” é assim mesmo. Tudo mais parecia um grande desfile de moda ao ar livre. E foi exatamente em meio a esse espontâneo desfile de moda que percebemos de imediato o quanto nossos óculos escuros falsificados eram ridículos e como nossas bermudas sem marca – feitas pelas nossas mães – eram cafonas. A moça das informações tinha mesmo razão… To be continued.
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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte I)
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
As mulheres dizem que jamais se esquecem do primeiro sutiã. Melindrosas coisas de mulher. Mas nós, cabras machos do Martinez, por motivos muito mais marcantes que um simples “sutiã”, jamais nos esquecemos da primeira viagem juntos para a praia. Isso sim foi determinante nas nossas passagens de moleques sem pêlos para valentes barbados prontos para o mundo.
Eu – o encapetado, o lendário Binga, o terrível Josoel John Igor Ride, o sossegado Charles e o gigante Nizão não fomos tão heróis quanto os homens que sapatearam na lua em julho de 1969, mas também não ficamos muito atrás no quesito bravo enfrentamento do desconhecido sem os devidos recursos de conforto e segurança.
Enfim a tão sonhada e, até então, distante maioridade havia chegado. Maioridade, sinônimo de liberdade! Habilitações nas mãos e o horizonte a espera. Primeiro destino lógico após muitas rodadas pelas redondezas: praia, lógico! Mais precisamente Ubatuba/SP, na época o mais chique point da chique galera descolada, tatuada e eternamente bronzeada – o que não era o caso da nossa turma. Muito pelo contrário, éramos caipiras natos…
O bom senhor Alécio, pai do Nizão, gentilmente nos emprestou para e empreitada um carro que ele usava só para ir pescar. Era um Fiat 147 de cor indefinida, na época já bem destruído. Para se ter idéia da situação geral do bólido, no lugar do imprescindível estepe, havia uma gaiola. Lixeiros sim deveriam organizar blitz para interceptar aquilo e solicitar documentação e demais obrigatoriedades, não os policiais. Haviam carros bem melhores nas garagens das nossas casas, mas como ainda não éramos dignos de confiança em termos de volante – aliás, acho que não somos até hoje – não tivemos nenhuma outra opção.
Na noite do “lançamento”, uma empolgante quinta feira véspera de carnaval, lotamos o veículo com mochilas, barraca grande, caixas de isopor, comida e muita cerveja em lata – para economizar grana lá -, nos esprememos como contorcionistas no pequeno espaço interior e partimos diante de desanimadoras frases dos nossos familiares: “não conseguirão chegar lá”.
O pobre carrinho grudou no chão em virtude do peso excessivo e da suspensão “ferro com ferro”, por tais motivos o pára-choques traseiro (caindo) e o tanque de combustível metálico foram se arrastando pelo asfalto e soltando faíscas noite afora. Quando vimos a situação real até demos um pouco de razão às frases dos nossos pais, mas nossos ânimos sim eram os importantes naquele momento de sonhada e desejada glória, e eles estavam em ebulição máxima. E outra: Deus sempre protege os loucos! Até mesmo os usuários de Fiat 147…
O primeiro susto foi simples: havíamos emprestado um bagageiro tubular de teto horrível e enferrujado para ganhar espaço externo no transporte das tralhas. Adaptamos o bicho conforme os improvisos permitiram e boa, parecia estar tudo beleza. Porém, um solavanco inesperado na estrada fez os ganchos de sustentação “enterrarem na lata podre” e surgirem como espadas de caixas de mágicos, próximas as nossas cabeças, tudo em pleno movimento. Gritaria e rápido descontrole direcional seguiram-se, mas tocamos o pau daquele jeito mesmo, com o tal bagageiro achatado na lata do teto. Isso logo nos dois quilômetros iniciais. Haviam ainda, teoricamente, mais de 500 a serem percorridos…
Quinhentos quilômetros de acordo com mapas e informações gerais, mas infelizmente cartas de motorista jamais foram e jamais serão sinônimo de capacidade e experiência. Antes de “achar” Ubatuba nós rodamos bastante perdidos por esse mundão de meu Deus. Passamos por Curitiba… Campo Grande… Belo Horizonte… e assim por diante. Parecia que estávamos verdadeiramente procurando pelo reino perdido de Atlântida, em virtude da dificuldade para encontrar. Foram muitas milhas inúteis. Imprevistos normais na vida de todos os iniciantes em qualquer tarefa.
A hoje fantástica rodovia D. Pedro I na época estava ainda em construção, mau sinalizada, repleta de tratores por todos os lados e com trânsito complicado – mesmo na madrugada. Os faróis do carro eram tão fracos que algum de nós precisava descer toda hora para ver se estavam mesmo acesos – nota: essa verificação de luminosidade só era possível se feita com uma lanterna ou tocha de fogo para iluminar o próprio farol. Luz para se enxergar a luz… Pilotando às escuras tiramos centenas de arriscadíssimas “finas” involuntárias de coisas mil – gatos, cachorros, andarilhos, caminhões, trabalhadores, placas, morros e demais seres e objetos. Mas “acho” que não matamos nada. Todos esses fatores adversos nos fizeram percorrer, inexplicavelmente, até mesmo trechos de terra em busca do litoral. Mas tudo era festa, e a festa estava só no início. To be continued.
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O Jardim das Lendas – Remorso do mecânico
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Remorso é como Rubens Barrichello, chega sempre bem depois. Isso quando chega… Mas no caso do nosso grande amigo Górdon, chegou sim. E bem mais rápido que ele podia imaginar.
Górdon é um dos mais carismáticos membros da família Martinez. Um cara constantemente de bem com a vida e capaz de divertir-se sozinho com suas próprias imbecilidades. Como, por exemplo, o dia que chegou em casa “levemente afetado por efeito etílico” e foi tentar tomar banho. Abriu o chuveiro, sentou-se no chão gelado para maior segurança e pegou no sono com a ducha forte esfolando o lombo. Acordou meia hora depois com os gritos (chatos) da mulher e som de correnteza de rio… A residência toda estava com um palmo de água, pois seu bumbumzinho havia entupido o ralo, fazendo o banheiro transbordar abundantemente. A sala, segundo consta, parecia o próprio Pantanal Matogrossense em época de chuva. Ele somente sorriu e tomou mais uma usando galocha.
Górdon trabalha numa grande e muito movimentada oficina de automóveis. Certa vez um cliente não conhecido procurou pelos serviços mecânicos e foi gentilmente atendido, como sempre acontece com todos que por lá passam. O valor foi devidamente combinado e uma complicada revisão geral no bombardeado Chevette 77 – bege desbotado – do camarada, foi feita. O trabalho ficou perfeito e o tal cliente satisfeito, o problema foi exatamente o pagamento – todos os cheques voltaram.
O bom Górdon começou então uma cruzada para cobrar o safado. Após inúmeras inúteis investidas, desistiu. Tem gente que não tem mesmo jeito, tampouco vergonha. Entretanto, certo belo fim de tarde nosso amigo cirurgião de motores avistou o caloteiro num bar lotado, bebendo e jogando bilhar feliz da vida.
Como havia tido um dia de cão, como diz o dito popular, decidiu extravasar sua fúria no camarada. Não mais queria receber, a intenção era somente agredir violentamente a moral do ordinário. O homem tinha um irreversível problema em uma das pernas – sequela de um acidente – e mancava bastante ao andar. Górdon, momentaneamente possuído pelo Capeta, foi logo direto ao assunto em altíssimo tom de voz:
- E aí, “Manco”, tudo beleza? Anda “mancando” muito pelos bares desse mundão de meu Deus?
O proprietário do Chevette fingiu não saber de nada e continuou matando habilmente bolas nas caçapas e entornando belos goles de cerveja, diante dos olhares espantados do pessoal em volta da mesa. Tal indiferença irritou ainda mais o agressor emergente, que começou a pegar mais pesado no discurso. Abriu de vez a caixa de ferramentas:
- Manco vira lata! Manco maldito! Manco morfético! Manco vadio! Manco… manco! Manco imundo!
- Para pagar oficinas por aí é “manco coitadinho”, mas para encher a cara e jogar dinheiro fora em jogatinas e bebida é saudável como um touro! Manco chifrudo!
– Sabe por que você manca? Porque Deus marca os filhos da (censurado) nessa vida. E outra, aquele seu carro amaldiçoado também há de começar a mancar em breve, pois vocês dois não prestam! Não precisa mais pagar nada, manco salafrário! Enfia sua dívida comigo no seu (censurado) e vá para a (censurado) que o pariu!
Após esse derrame de lava vulcânica em forma de palavras, Górdon saiu do buteco pisando duro e com a alma lavada. Não havia dinheiro no mundo que pudesse pagar aquele momento de ódio despejado no caloteiro. Porém o castigo pelas ofensas não veio, como dizem, a cavalo; no caso dele veio de Ferrari 599 GTO – rápida como a luz. Poucas horas após as agressões verbais em público, o tal manco teve uma parada cardíaca brava e foi para a UTI em estado “mais pra lá do que pra cá”…
Nove dias de internação se seguiram e por nove dias o insone Górdon rezou intensamente pela saúde do cara. Fez promessa e até novena no quarteirão da sua casa em prol da recuperação do manquitola ele organizou, pois tinha certeza ser diretamente culpado pela falha no coração do vagabundo. A humilhação pública a qual tinha lhe proporcionado obviamente havia sido determinante na parada da bomba de sangue.
Peso na consciência. Remorso. Tudo acabou bem e o camarada não passou dessa para melhor, pelo menos não dessa vez. Recuperou-se legal e continua por aí. Mas o cobrador “Pit Bull” reviu seus conceitos sobre cobrança agressiva. Afinal, a pena de morte nunca foi instituída no Brasil. E mesmo fosse certamente as execuções não se dariam através de berros em butecos. Berros referentes a pastilhas de freios, correias dentadas, giclês de carburadores, platinados e demais bugigangas de prateleiras de oficinas. Tampouco Górdon, o dócil, seria um carrasco… Abraços e até mais.
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Serão Literário com Nelson de Oliveira

Local: Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (Campus/UNESP)
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O Jardim das Lendas – A maritaca clonada
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Diz a ciência que raios nunca caem no mesmo lugar. Mas é possível sim dois (ou até mais) loucos nascerem na mesma família e viverem sob o mesmo teto. Ainda mais no Martinez, berço eterno de estranhos e alucinados tipos. Atentem-se a esse conto e entenderão.
Uma boa dupla de amigos nossos, dois inseparáveis irmãos, andavam juntos por todos os lados de Araraquara, sempre bagunçando aqui e ali. Certa vez, passando em frente à casa de um outro conhecido, viram uma Maritaca a qual imaginaram ser do cara. A bicha estava dando sopa sozinha sobre o muro frontal. Maritaca é uma parente próxima dos papagaios, periquitos e demais aves esverdeadas falantes. Às vezes são muito bravas e bicam forte até a sombra – de machucar feio -, mas não era o caso daquela.
Os dois, percebendo a docilidade da em pauta, decidiram aprontar com o cara e raptaram a criatura palmeirense. A bichinha gritou um pouco por socorro, mas foi embora na boa com os espertalhões. Cinco dias se passaram com eles em posse da ave e nada de reclamação nem tristeza por parte do amigo. Sem mais o que fazer os sequestradores contaram para ele, no bar e em tom de malandragem, a maldade que haviam feito. E eis que, para o espanto geral, veio a frase do supostamente lesado: “Mas do que vocês estão falando? Eu nunca tive maritaca nenhuma. Vocês são retardados?” Após tentarem inutilmente descobrir o verdadeiro dono, ficaram com a bicha. O carinho e o amor entre os três já era coisa de novela. Toda uma vida em cinco dias…
Porém, como mentira tem perna curta e o mundo é pequeno, vários meses depois um grandão com cara de poucos amigos abortou um dos irmãos na rua e exigiu explicação sobre o pássaro em seu ombro. Certas pequenas particularidades levaram a desconfiança. “Tenho certeza que é a maritaca da minha mãe. Ela se chama Mulata e a velha está até doente em virtude do sumiço”, disse o bruta montes. E é daqui e não é dali, decidiram então marcar uma acareação entre as partes – a ave e a velha. Os irmãos, além de também desconfiados, já não mais queriam devolver a verdinha tagarela. O amor, como dito, tornara-se real, ardente e recíproco. Inclusive ela havia aprendido o nome de todos da família – até mesmo os números dos documentos de cada um sabia gritar.
Mas o grande homem cobrador foi taxativo: “Se for mesmo a Mulata virá correndo para os braços da mamãe só com um simples assovio, as duas são amigas inseparáveis e já assistiram juntas mais de quinze copas do mundo”. Diante de tal óbvio risco de máscara ao chão e de perda da mascote, os irmãos arquitetaram um plano genial. Foram até a casa de um outro amigo que “tinha realmente” uma lazarenta maritaca do mesmo porte, explicaram o impasse e emprestaram a bicha. Fizeram na verdade somente uma troca rápida. As duas eram muito parecidas visualmente, mas os temperamentos eram opostos. A que faria o papel de clone impostor só no momento do encontro era um verdadeiro demônio, exatamente o que precisavam, pois logicamente a velha se ferraria ao tentar aproximação e isso acabaria por completo com a suspeita de furto. Dito e feito…
Dizem que a ave emprestada veio destruindo tudo dentro do carro no translado do empréstimo, rasgou os bancos, trocou a marcha com o bico um monte de vezes, arrancou o tape do painel, comeu o ponteiro do velocímetro, tirou lascas de carne dos dois irmãos e coisas mais. Porém, toda dor e prejuízos valeram à pena. Na hora e lugar marcados para o reconhecimento a pobre velhinha foi toda feliz: “Mulata, Mulata, dá o pé e vem com a vovó”… No que estendeu a mão o demônio verde desossou na hora o dedo indicador da anciã. Não feliz a pobre nona enganada continuou: “Deve estar me estranhando pelo tempo sem carinho”, e abraçou a bicha. Nesse instante o satã com cor de folhagem cravou as garras dos pés no pescoço da senhora e iniciou uma impiedosa sequência de bicadas fortes na cabeça.
Diante da horrível cena de sangramento abundante imediato o ataque brutal foi apartado pela galera ali presente. Jogaram a toalha no ringue para evitar uma carnificina ainda maior. Somente após estar parecida com o Tenente John McClane – Bruce Willis em Duro de Matar – de tanto sangue escorrendo, a velha desistiu. “Não é mesmo a minha Mulatinha. Vamos embora desse inferno”. Troca de aves desfeita e tudo acabou bem e com final feliz para os dois irmãos. Os três viveram felizes para sempre.
Durante a história da humanidade vários países conquistaram suas independências as custas de muito sangue derramado nos campos de batalha. Mas percebam que, em alguns casos clássicos, somente para se ter uma simples maritaca o sangue perdido também precisa entrar em cena… Abraços a todos e até breve.
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O Jardim das Lendas – O arqueiro vesgo
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Muitos e muitas de vocês já devem ter ouvido falar sobre O Arqueiro Verde e Robin Hood, dois famosos heróis de mira perfeita que tornavam seus arcos e flechas verdadeiros pesadelos para malvados. Mas imagino que poucos e poucas conheçam Tom – O Arqueiro Vesgo e Demente – do Martinez, óbvio. Vou lhes apresentar agora o imbecil e sua também incrível façanha.
Após assistir mais de duzentas vezes cada um dos filmes do Rambo, Tom transformou-se por completo. Ele queria, a todo custo, ser um “boina de qualquer cor”. Para quem não sabe, em algumas facções do Exército Americano a cor das boinas determina uma espécie de nível de treinamento e de fúria sangrenta. Claro que John Rambo possuía a cor máxima da Galáxia.
A primeira providência que nosso amigo tomou para chegar o mais próximo possível do lendário personagem de Sylvester Stallone foi comprar uma faca de sobrevivência na selva, igualzinha a do cabra valente do cinema. A coisa, apesar de inútil para ele, até que era linda: negra. com bússola e diversos outros utensílios guardados dentro do cabo, de fato ideais para quem se perde na mata e, logicamente, sabe usá-los. Por isso mesmo eram tão inúteis para o tonto. Mesmo porque qual a serventia, por exemplo, de uma bússola dentro da cidade com tantas placas de sinalização por todos os lados e centenas de frentistas de posto para se pedir informação?
Devidamente munido do indispensável acessório e com uma tira de pano amarrada no cabelo, Tom foi sobreviver num terreno baldio vizinho da sua casa. Mas a coisa era estranha e bem diferente da realidade de um verdadeiro perdido, pois batia a fome e ele voltava ao lar para fazer uma boquinha, a sede apertava e lá ia o imbecil tomar refrigerante geladinho, chovia e o moço voava para assistir sessão da tarde sob o cobertor e assim sucessivamente. “Sobreviver com a tal faca” dessa forma não é tão difícil…
Não feliz somente com essas aventuras sem tempero, o ridículo foi até o shopping de Ribeirão Preto para comprar um arco e flecha profissional, também parecido ao usado pelo seu ídolo nas matanças das telas cinematográficas. O coitado do vendedor da loja de armamentos que atendeu Tom, impressionado com suas palavras firmes e convictas quanto a experiência referente ao produto que tinha em mãos, ofereceu-lhe uma grande sala no piso superior onde havia alvos e outros apetrechos para uso prático e imediato. Um local para “test drive” do arco. Diante do olhar de expectativa e murmúrios gerais de várias pessoas também presentes no local sobre quem seria aquele cara, Tom passou cuspe na mão, deitou a franja para o lado da testa, armou a coisa, puxou a corda e vapt…
Como o tonto jamais havia usado um apetrecho daquele, logicamente o tiro saiu desgovernado. Nada nessa vida é tão simples quanto se pensa. A ligeira e pesada flecha de ponta de metal desviou “só um pouquinho da trajetória” e cravou feio no aparelho de ar condicionado afixado na parede, uns três metros acima e uns quatro para o lado do grande alvo. Percebam a diferença quase imperceptível de margem de erro…
Com a força do impacto a seta enterrou até o fundo no eletrodoméstico, causando um estouro seguido por curto circuito, vazamento de gás e fumaceira geral. Quase o estúpido incendeia a cidade de Ribeirão inteira. O vendedor, totalmente inconformado, começou a gritar desesperado: “Cristo de Deus… você é débil mental? Você é louco? Você é vesgo? Olhe o que fez, seu idiota, complicou toda minha vida profissional! Eu tenho família e muitas bocas para alimentar! Devolva já essa desgraça maldita, antes que mate inocentes por aí!”
Como ainda não havia pago a porcaria e sem ter muito o que explicar, Tom largou a arma e saiu correndo shopping afora com algumas pessoas pouco amáveis no encalço. Mas não foi capturado e nem torturado, como costuma acontecer com o próprio Rambo.
A mira foi a única diferença entre nosso amigo e todos os conhecidos personagens usuários de arcos acima citados. Só isso. Por outro lado, a situação poderia ter sido bem pior. Se ele, alucinado como estava na época, tivesse conseguido uma chance de teste com um bem armado helicóptero de guerra – iguais aos dos filmes -, a coisa teria sido realmente bem pior. Ainda mais com a “mira” que tinha… Até breve.
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O Jardim das Lendas – O canário curupira
A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

por Junião
Se eu não tivesse acompanhado essa absurda história tão de perto, “eu mesmo” não acreditaria nela se a ouvisse por aí. E caso esse seja o primeiro conto que você esteja lendo, impressione-se ainda mais com os muitos outros já aqui postados, assim talvez entenda melhor porque eu disse no início da saga que o tal Jardim Martinez conta com a maior quantidade de imbecis por metro quadrado do Universo – desse nosso Universo e do “Paralelo” também.
Alexandre, meu cunhado, é outro cara que caminha bem distante do que podemos chamar de normal. Um ser que espanca o Mickey Mouse diante de centenas de crianças perplexas em pleno Playcenter lotado, que soca um Papai Noel dentro de uma grande loja araraquarense igualmente lotada e que atropela propositalmente um palhaço boca dura na frente de um circo, não pode ser considerado muito… normal. Mas essas lindas historinhas infantis eu conto outra hora.
O cruel carrasco dos personagens de contos de fadas vira e mexe se envolve com algum passatempo exótico. Cada fase é uma coisa diferente, sempre sob o aval desconfiado da sua mulher Patrícia – minha irmã. Trabalhosos aquários de água salgada, cultivo e reprodução de orquídeas e assim por diante. Em uma dessas empreitadas temporárias o entendido se meteu com criação de lindos canários cantadores. Também durou bem pouco essa experiência.
Logo de cara, numa das suas primeiras “aquisições passarinhais”, ele fechou negócio por telefone e foi buscar o bichinho à noite. Regra básica no selvagem mundo capitalista: não se compra nada por telefone, muito menos se busca à noite. Nem mesmo canários…
Voltando contente com seu novo companheirinho no banco traseiro do carro, ele percebeu que em qualquer mínima freada o pássaro caía de cabeça no assoalho da gaiola. Imaginou que fosse sono incontrolável ou até mesmo uma bebedeira, afinal pássaros também “enchem a cara de vez em quando, isso é normal”.
Mas ao chegar em casa o imbecil entendeu o porque dos tombos estranhos. O pequeno ser amarelo e alado tinha um defeito congênito nas perninhas e os pés, acreditem, eram virados para trás. Como a criatura das matas do nosso folclore conhecida como Curupira. Por isso ele não parava no puleiro com o movimento do carro, a força G empurrava para frente e a garra funcionava em sentido contrário. Ele só rodopiava como um jogadorzinho de pebolim e rolava naturalmente para baixo, esborrachando-se. Mesmo com meu insignificante conhecimento sobre aves, eu nunca tinha visto nada parecido.
Detectado o pequeno problema Alexandre, claro, voltou na mesma hora para reclamar com o antigo proprietário. Aí a coisa piorou ainda mais, pois o vendedor espertalhão fez uma bela cara de espanto total e foi clássico: “ué… não estou entendendo… daqui ele saiu normal”. Logicamente recebeu a devida resposta, igualmente clássica: “o senhor não deve somente estar pensando, mas sim ter certeza que eu sou idiota, certo? Eu estou vestido de palhaço? Estou de peruca alaranjada e não percebi? Você só pode estar de brincadeira, acha que eu torci os pezinhos com alicate?”
Após a tentativa frustrada de anulação da aquisição do emplumadinho por claro defeito no produto, foi só soco na cara daqui e soco na cara dali, de ambos os lados. Até para o próprio canário perneta sobrou um murro no meio do bico. Mas a coisa ficou por isso mesmo, sem restituição alguma. Dias depois o grotesco bichinho escapou e até hoje deve estar caindo de cabeça por esse mundão afora. Talvez essa transação comercial furada tenha sido castigo por ele, Alexandre – o Terrível ter saído no braço e agredido tantos meigos personagens famosos. Acabou se tornando vítima de um também personagem: o Curupira. Tomou fumo! Até a próxima.
Foto: Guilherme Ortiz
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julho 21st, 2010
Tiago Pereira







