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Feliz aniversário Internet

por Tiago Pereira

internet

Para, pensa e reflete. Onde você estava há 15 anos?

E aí, lembrou?

Em 1995 eu cursava a 8ª série do extinto colegial. Em tempos de CD´s, Videocassetes e Videogames de 16 bits surgia para o mundo o que, nem todo mundo sabia, iria mudar as nossas vidas. A tal internet nasceu com uma missão nada fácil: fazer com que pessoas e empresas se comunicassem de maneira mais rápida, eficiente e de qualquer lugar do mundo. Está certo que fazer isso com um modem de 14.400 kbps, mesmo naquela época, não era nada fácil.

Meu primeiro contato com a recém chegada foi só em 1996 na casa do meu amigo Digão. Ele me mostrou a página inicial de um provedor lá de Araraquara com alguns links para salas de bate-papo, busca no Cadê? e outras coisinhas mais. Me lembro até hoje que o layout do site desse provedor era como uma teia de aranha, e os links ficavam dispostos como se estivessem grudados na teia. Fantástico!

Essa foi a minha primeira impressão da internet, você clicava em conectar, esperava a boa vontade do seu modem e, se ele conectasse, você entrava em alguma sala de bate-papo do UOL ou do ZAZ (que depois virou Terra), lia alguma notícia e ficava ali, contando os pulsos para a conta do telefone não ficar cara. “Depois da meia-noite é mais barato”, quantas vezes eu cansei de ouvir essa frase.

Mas em 1997 minha vida mudou, até então eu não tinha computador. Foi aí que meu pai comprou nosso ultramegablaster Pentium 166 Mhz, e assinou um plano de internet de 12 horas por mês. É até engraçado pensar nisso, já que hoje eu fico conectado umas 12 horas por dia. Até um site no Geocities, feito no Frontpage, eu cheguei a ter. Clássico demais, não? Sem esquecer do ICQ é claro (aau), que era viciante. E pensar que tem gente que nem sabe do que eu estou falando. Foi nessa época também que surgiu um dos primeiros “virais” no Brasil, de péssimo gosto por sinal. As fotos do acidente do grupo Mamonas Assassinas circularam as contas de e-mail da maioria dos internautas, isso sem contar aqueles que imprimiam as mesmas para mostrar aos amigos e colegas que não tinham internet.

Mas o tempo passou e, após o boom que levou a falência várias empresas pontocom, chegou a vez da tão falada Web 2.0, onde de meros coadjuvantes os internautas passaram a ser protagonistas, ou seja, começaram a gerar conteúdos e não apenas consumi-los. Foi a vez dos blogs, fotologs e outros tantos logs. Qualquer criança com a mínima noção de informática podia (e ainda pode) ter o seu e colocar ali sua ideias, pensamentos, fotos e tudo mais. Foi o começo das redes sociais.

Em 2004 surgiram o Orkut e o Facebook e foi aí que a coisa toda tomou proporções gigantescas. Foi mais ou menos assim, o mundo aderiu ao Facebook e o Brasil ao Orkut, virou febre generalizada por aqui, todo mundo teve ou tem o seu perfil lá. Tudo ia às mil maravilhas até o Google comprar o Orkut. Implantaram tantas e tantas melhorias que ele virou o que todo mundo conhece hoje e o que aconteceu foi uma migração em massa, uma espécie de cyber êxodo, para o Facebook, que deve ultrapassar o Orkut em números de usuários no Brasil ainda esse ano.

No meio dessa bagunça toda, em 2006, eis que surge o Twitter e o mundo se espremeu para caber em apenas 140 caracteres. Mais de 80% do que é publicado no Twitter são mensagens inúteis do tipo: Bom dia, acordei agora! Mas também tem muita coisa legal rolando, podemos dizer que ele é, de longe, a melhor ferramenta para propagar uma notícia, uma ideia ou qualquer outra coisa que você queira compartilhar.

Claro que a internet é muito mais do que eu falei até aqui, afinal esse texto não tem nenhum fundo científico. Em 15 anos ela mudou demais a vida de todo mundo, seja direta ou indiretamente, até os mais avessos à tecnologia se rederam ou se renderão a ela um dia. Mas a pergunta que fica no ar é seguinte: O que vem por aí? Será que daqui há 15 anos estaremos falando de alguma nova tecnologia que também mudou o mundo ou será que a internet, e suas evoluções, ainda serão a bola da vez?

Agora para, pensa e reflete. Onde você estará daqui a 15 anos?

Pensou?

Por enquanto só nos resta esperar e dizer parabéns para essa menina que acaba de debutar.

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Pura Essência

por Tiago Pereira

juntos

Eu sou a pura essência de mim mesmo.

Onde o que realmente vale está por dentro.

Nem a 50, nem a 120.

Nem curtos e nem longos.

Nem azuis e tão pouco castanhos.

Nem caseiro, nem baladeiro.

Nem de mais e Nem de menos.

Eu sou a pura essência de mim mesmo.

Sou puro trabalho e dedicação.

Sou caminhada e promessa de regime na segunda.

Fim do regime na terça.

E cerveja no boteco pelo resto da semana.

Sou a simplicidade do traço de um lápis e a modernidade de um supercomputador.

Sou sangue no olho e soco na porta.

Sou olhar e carícias nos cabelos.

Sou criança e sou adulto, poeta e ignorante.

Não sou inverno e não sou verão.

Minha estação é a das flores.

Tanto quando elas nascem como quando elas morrem.

Sou música alta e bagunça com os amigos,

mas também sou silêncio e solidão.

Tristeza quase nunca,

só quando há decepção.

Não sou razão tampouco emoção,

sou uma mistura de tudo, depende o lugar, depende a situação.

Eu sou a pura essência de mim mesmo.

Onde, no final eu sempre percebo, que o que realmente vale está por dentro.

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Sob diária regência da morte

por Junião

anjoguarda

Alguns anos já se passaram, mas constantemente os detalhes daquele momento ainda surgem fortes em meio aos meus atuais pensamentos. Lembro-me como se fosse ontem e aprendo cada vez mais com a construtiva experiência de difícil descrição. Era uma deliciosa e quente sexta-feira de primavera e eu pilotava feliz por uma movimentada avenida de Araraquara minha imponente 750 cilindradas importada. A cabeça estava em êxtase e os planos eram muitos. Bares com a agitada turma de amigos, show de rock, mais bares, motel com a namorada e assim por diante. A noite seria curta para tanto idealizado. Os meus planos eram vários, mas o do destino era um só e bem diferente. E, feliz ou infelizmente em certos casos, é o plano dele que sempre vale. Nós somos nesse mundo, como eu mesmo já escrevi em outro texto, somente meras marionetes num passageiro palco chamado Terra. Meras marionetes que podem sim ter movimentos próprios, mas que jamais entrarão ou sairão do show por própria decisão…

O dia havia sido muito cansativo rodando pelas perigosas estradas. Para desespero do sanguinário patrão o faturamento da gigante empresa estava caindo e, consequentemente, as cobranças ao departamento de vendas onde eu atuava se tornando cada vez mais insuportáveis. O sistema capitalista e consumista atual criado por nós é cruel em aspectos diversos. Para que o corpo tenha seus mimos e regalias materiais, a alma deve ser sacrificada diária e lentamente. Sacrificada por estranhos que pouco dão em troca de muito. Antes da tal experiência eu havia passado pela casa da minha filha, na época com dois anos. Brincamos bastante até que ela dormisse. Para felicidade e eterno agradecimento a Deus minha ex-mulher e seu novo marido, maravilhosas pessoas, sempre abriram confiantemente a porta da casa deles para que eu pudesse ser “pai”. Aquele pouco tempo infantil juntos havia sido, até ali, o alívio para o terrível interminável expediente.

Mas os problemas estavam guardados no escritório para serem revistos somente na segunda, o negócio era se divertir e curtir a vida. E exatamente atrás disso que eu ia alegre quando um carro cruzou direto um sinal de pare bem a minha frente. O motorista, um jovem de uma pequena cidade vizinha, confundiu-se com a má sinalização e atingiu-me diretamente, sem chance de desvio. Foi tudo rápido demais e nem mesmo os pensamentos conseguiram agir. Coisas ruins normalmente são assim. Apesar da minha velocidade estar de acordo com o permitido para o local, o impacto foi muito violento. Eu nunca abusei pilotando nada, mas o peso da grande moto contribuiu para os igualmente grandes estragos gerais.

Fui arremessado vários metros adiante e caí de costas no asfalto. A batida forte com a cabeça no chão desacordou-me por alguns instantes, mesmo com a proteção do caro capacete que eu usava. Eu não sei descrever ou explicar exatamente para onde fui nesse período fora do ar, só tenho certeza que não voltei de lá o mesmo em termos “espirituais”. Ao meu particular ver várias melhoras ocorreram. Pena que só ao “meu ver”, pois nunca consegui explicar, muito menos convencer ninguém sobre o que acontece quando a temida morte de repente bate a nossa porta sem prévios avisos. E isso pode ser com qualquer um, ainda hoje.

Recobrei a consciência ainda deitado no chão, rodeado por centenas de pessoas e com os valorosos profissionais do resgate imobilizando meu pescoço enquanto acalmavam-me. As sensações de impotência, de fragilidade, de medo geral, de reavaliações imediatas, de vontade de chorar e de desespero total entrelaçavam-se em minha mente como um formigueiro alvoroçado. “Por que comigo”, questionava eu para eu mesmo ou para alguém superior qualquer, de quem não ouviria a resposta. Não ouviria como gostaria, tampouco ali naquele momento confuso. Tudo foi acontecendo ainda dentro da ambulância rumo ao hospital, com a estridente sirene como fundo musical.

Passado o susto e, graças ao Todo Poderoso verificada a não seriedade dos ferimentos, a rotina foi voltando ao normal. Mas nunca mais como o normal até ali conhecido…

Os dias foram se seguindo e eu, felizmente, fui naturalmente enxergando todas as situações do dia a dia com mais simplicidade e calma. Vinham em minha cabeça, com a naturalidade acima citada, flashes do acontecido, seguidos por ensinamentos pessoais. Era como se eu estivesse sendo avaliado num tipo de vestibular, após uma magnífica aula particular.

Eu percebi que cometia o engano terrível que muitos também cometem sem perceber que era pensar que comigo jamais aconteceria. Entendi que estamos todos diariamente sob regência exclusiva dessa tão temida e enigmática morte. Em suma, tudo que pensamos possuir não é realmente nosso. Nem mesmo o corpo, pois eu poderia ter perdido um braço ou perna, poderia ter terminado numa cadeira de rodas e tornado-me dependente da eterna caridade alheia, nem sempre tão sincera quanto demonstrada. Qualquer um desses fatos teria redirecionado totalmente minha forma de viver. Mas o que mais me cobrava era a clássica: eu poderia ter… morrido. Poderia ter morrido e hoje seria somente uma breve lembrança em alguma das muitas festas que por aqui continuariam a acontecer. O tempo não pára por nada e o mundo não muda por ninguém. Ninguém é e nem jamais será insubstituível…

Eu fui entendendo posteriormente que minha imponente moto importada de 750 cilindradas não iria comigo, para onde quer que eu fosse. Eu vi que não significava nada para a empresa e não passava de uma porcaria de número no gráfico de alguma maldita tela de computador em alguma maldita sala chique. Tanto que eles nem se preocuparam com o fato e comigo. A alta diretoria já estava, inclusive, procurando substituto para o caso de eu não ser mais viável e lucrativo. Essa é a triste realidade nos altos empreendimentos.

Sua posição profissional é muito importante para proporcionar as regalias materiais mencionadas, mas não espere muito do seu trabalho além das cifras ao fim do mês. Ele não estará com você se um dia precisar de verdade ou tornar-se “inviável”. Os amigos sim estarão, não importa quantos sejam. Apesar que diante de alguma terrível enfermidade, muitos dos que pensamos ser eternos companheiros também somem como água escorrendo pelas mãos.

Os dias foram se seguindo, levando-me a certos – muitos – redirecionamentos de rumos em âmbito geral. Literalmente tirei a camisa da empresa em meio a uma tensa reunião e abandonei tudo sem sequer olhar para trás. Claro que rotularam-me imediatamente como louco e inconsequente, entre outros adjetivos severos, mas eu fiz de forma consciente. Não há futuro bem planejado se o presente não for respeitado em termos de bem estar “real”. Não há pé de meia que recupere o tempo e que cure as iminentes doenças resultantes de se fazer sempre o que não se queria fazer de verdade.

AnjoUma gorda poupança e um bom plano médico logicamente podem ajudar no futuro, onde a velhice vai consumindo minuto a minuto a olhos vistos. Mas não pensem que isso “salvará” de verdade, pois no caso acima já citado de uma irreversível enfermidade, tudo acumulado durante a vida toda vai literalmente para o buraco e as cláusulas obscuras dos planos hospitalares surgem do nada para apenas aumentar o sofrimento. O que tiver que ser, será. Não importa por quantos “papéis” estivermos suposta e enganosamente protegidos. Daquele dia em diante, onde me foi dada uma nova chance, eu comecei a trabalhar somente em lugares menores e mais dentro dos meus ideais e vontades, lugares onde os homens ainda mandam mais que os computadores. Fui barateando meu custo de vida e o trouxe ao mínimo possível, pois entendi que gastar nada mais é que um vício em casos múltiplos. Quanto mais se tem, mais se necessita ter e decorrentemente mais se consome sem necessidade. De uma forma geral venho desde aquela sexta-feira simplificando minha vida sem medo algum do amanhã, já que essa tão esperada dádiva pode não vir. Devemos sim trabalhar e produzir, mas tudo dentro de um prazeroso limite saudável e nunca a mais do que o básico para se viver em paz com a própria alma. Devemos sim olhar para o amanhã, mas nunca com a “certeza total” de assistir um novo nascer do sol no horizonte. A certeza desse privilégio não foi e não será concedida a ninguém.

Eu jamais acreditei em acasos, acho que todos os acontecimentos têm seu prévio propósito lógico. Por isso algumas facilidades proporcionadas pelo infalível destino deram-me a chance para concretizar alguns sonhos até então supostamente irrealizáveis. Comecei a desenhar e escrever sem parar, minhas paixões desde a infância as quais eu não podia por em prática pois nunca tinha tempo para mim mesmo. Comecei a abandonar os insuportáveis sapatos apertados e substituí-los cada vez mais pelos confortáveis chinelos de dedo – inclusive de cores trocadas para enfatizar que podemos e até devemos ser como quisermos. Ser diferente, principalmente nos mínimos corriqueiros detalhes, não é uma contravenção como se diz por aí, é na verdade um dom…

Com esse dito tempo maior para comigo mesmo produzi, junto com grandes amigos, uma revista de humor. Isso também era sonho até então engavetado por total falta de momentos pessoais. Escrevi dois livros, sonhos ainda maiores concretizados a partir do momento que tive “tempo” para ver que tudo era possível. Comecei a colaborar constantemente com sites especializados em literatura e isso gera cada vez mais adeptos fiéis. E não existe nada mais gratificante para quem cria do que receber elogios sinceros. Em resumo: comecei a viver cada vez mais ao meu próprio modo, e assim continuarei. De alguma forma me foi ensinado que não somos corpos físicos que às vezes têm experiências espirituais, somos na verdade espíritos vivendo por aqui uma breve experiência corporal. Por tal, dentro das devidas responsabilidades aqui ainda exigidas, eu particularmente quase nada “levo a sério”.

Logicamente eu não sou hipócrita e sei da necessidade de se ter um pouco do maldito dinheiro no bolso. As deliciosas cervejas que tanto aprecio, por exemplo, custam e os comerciantes não aceitam filosofias baratas como pagamento. Eu sei disso. Mas agora sei também que não preciso nada mais além do necessário para viver muito bem. E exatamente essa “quantidade necessária” determinada por cada um é que deve ser respeitada. Apesar do sistema ser assim, não é correta a associação direta entre respeito e bens materiais. Assim como é um erro de imensas proporções a ligação entre poder financeiro e felicidade. Se isso fosse fato real não aconteceriam tantos animadíssimos churrascos improvisados nas lajes das miseráveis favelas. Assim como se a suposta imprescindível ligação do sorriso com a carteira fosse mesmo verídica, não ocorreriam tantos suicídios nas altas classes sociais. Felicidade de verdade é muito mais decisão que situação. Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar o “meu mundo”. Por tal prefiro ser lembrado, quando já ausente, pelo que fui e não pelo que tinha…

Claro que essa simples nova forma própria de enxergar e viver, a qual venho naturalmente desenvolvendo desde o acidente, muito tem gerado e muito mais ainda vai gerar em termos de “rótulos”. Louco, alienado, irresponsável, vagabundo etc. Adjetivos metralhados principalmente pelos mais próximos. Mas até isso pouco significa para mim. Rótulos fazem e farão parte da vida das pessoas para sempre. Eu não me incomodo com o que pensam e dizem, pois não posso controlar tais levianos julgamentos. Há muito eu também comecei a preocupar-me só com o que “eu” posso direcionar. Mesmo porque não importa como se viva, seu jeito sempre vai estar errado aos olhos de quem possui facilidade para julgar precipitada e severamente. Talvez muitos inquisidores tenham, na verdade, certa inveja bem maquiada e guardada no escuro fundo dos seus interiores. Mudar a própria vida e quebrar regras desnecessárias certamente é vontade unânime, mas a coragem exigida deve ser maior que o medo das opiniões alheias…

O sábio Criador não deu a nenhum dos mortais o poder para ver o futuro. Mas imaginem que isso fosse possível e que, através desse poder, soubéssemos o exato dia das nossas mortes. Imaginem quantos conceitos estúpidos viriam abaixo exatamente pelo tempo não mais desperdiçado com idiotices. Certamente pensaríamos, de acordo com cada caso em específico: “nossa, minha partida já é no ‘próximo ano’, portanto preciso aproveitar ao máximo”.

Imaginem quantas coisas não valeriam mais a pena… Imaginem quantos patrões demoníacos seriam antecipadamente mandados para os quintos dos infernos… Imaginem quantos casamentos desastrosos nem chegariam a acontecer ou quantos outros com as “pessoas certas” poderiam acontecer antes que fosse tarde… Imaginem quantos perdões sinceros seriam pedidos antes que também fosse tarde demais… Imaginem quantos “eu te amo” seriam ditos antes que o tempo se esgotasse e assim por diante.

Imaginem, amados amigos e amigas, imaginem quantos pensamentos e atitudes seriam diferentes e bem mais leves diante da iminente contagem regressiva. Agora imaginem, com calma e com suas cabeças nos travesseiros, que a temida “partida” pode realmente ser no próximo ano. Ou até antes…

Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar o meu mundo. Talvez a segunda chance a mim concedida naquela sexta tenha o propósito de poder dizer tudo isso a quem quiser experimentar também repensar seus valores e reavaliar os sentidos dessa vida, sem ter que vivenciar experiência quase fatal. Algumas crianças tornam-se rapidamente supostos poderosos e arrogantes homens abastados. O que esses “poderosos” não compreendem é que em breve podem estar de volta ao estado infantil, totalmente dependentes dos alheios até para as “novamente trocas de fraldas”… Então, diante do óbvio, porque levar tudo tão a sério e fazer do viver um calvário pavimentado com imposições tolas?

Abraços e que Deus ilumine a todos.

Dedico esse texto, que foi o meu último, à minha infelizmente infeliz mãe. Uma pessoa amarga que arrastou-se por toda uma indesejada vida, sem coragem para mudar seus rumos nos necessários momentos. Uma pessoa apegada ao material, que faz da religiosidade extrema e nociva sua mais poderosa arma para julgar sob rígidos critérios e punir qualquer conceito contrário ao seu próprio. Uma pessoa que nunca pôs seus sonhos em prática, pois jamais foi capaz sequer de sonhar. Por tais desnecessários tristes atributos, hoje só faz por tentar destruir com pesadas críticas os que ousam buscar a felicidade pessoal através da simplicidade. Junião.

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Antigamente

banco

Há pouco mais de cinco meses para os meus 30 anos, eu cheguei a uma importante conclusão: Antigamente era tudo mais simples, gostoso e divertido. Vejam se vocês concordam comigo.

Meu primeiro vídeo-game foi um Atari que, meu irmão e eu, ganhamos dos nossos pais e, que eu meu lembre, não existia nenhum outro parecido na época. Tinha um tal de TeleJogo (certo?), mas acho que era um pouco mais antigo. Ou seja, era um único vídeo-game com um controle que continha apenas um botão para fazer tudo, e nesse caso, tudo se resumia a pular, chutar ou atirar. Não existiam controles mirabolantes com manuais de instruções e muito menos gráficos com diversas dimensões que imitam a realidade. Era apenas um botão e ele fazia verdadeiras maravilhas. Os jogos vinham em fitas (ou cartuchos para muitos) e vez ou outra não era difícil você ver algum garoto dar um belo “assoprão” nos contatos para que ela voltasse a funcionar. Não existiam memory cards, se você perdesse voltava no começo do jogo. E só mais um detalhe, geralmente os jogos não tinham fim, ou você conhece alguém que chegou ao final de Pitfall, por exemplo? Acho que não.

atari

Antigamente as coisas eram mais simples. Todos queriam ser jogadores de futebol, todos queriam jogar bola na quadra perto de casa, mas ninguém tinha uma bola. Pablo tinha uma bola, de plástico, daquelas tipo “Dente de Leite”, logo a bola de plástico do Pablo era do bairro inteiro. Cada dia ela estava na casa de alguém e, acreditem se quiserem, mesmo sendo de plástico e ter sido utilizada praticamente em todos os dias da sua existência, a bola do Pablo durou vários anos.

Durou vários anos ou apenas alguns meses? Sinceramente não me lembro, o que eu me lembro é que naquele tempo tudo era mais lento, mais gostoso. Os carros, a informação, a vida em si andava mais devagar, principalmente as tardes que passávamos na pracinha, com Sol quente, céu azul e um vento gostoso que desarrumava os cabelos.

O caso é que a bola durou o tempo necessário para fazer parte da minha vida e de muitos outros garotos que moraram ou ainda moram no Jardim Martinez em Araraquara/SP. Durou, mas um dia ela furou. Furou ou se perdeu por aí, em um quartinho de bagunças qualquer na casa de algum menino que, de repente, se viu adulto e precisou correr atrás dos compromissos e não mais da bola.

caloiQuando crianças não usávamos capacetes e nem cintos de segurança e, mesmo assim, menos pessoas morriam. Como eu disse, tudo andava mais devagar, ninguém vivia a mil por hora, com compromissos diversos e milhares de e-mails para responder. A impressão que eu tenho é que viver era tão fácil e nós mesmos complicamos tudo. Complicamos para agilizar as nossas vidas, complicamos para estarmos acessíveis vinte e quatro horas por dia em todos os dias do ano.

Pra que tudo isso? Por que toda essa necessidade de “velocidade” se podemos caminhar ou ir de bicicleta? Me lembro da minha primeira bicicleta, uma Caloi azul, estilo cabrita, lembra? Lembro do dia em que eu e minha prima Gláucia aprendemos a andar nela sem rodinhas, foi algo mágico. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos (acho), mas me lembro como se fosse agora. Primeiro meu pai tirou uma rodinha e a gente aprendeu a andar sem ela, depois ele tirou a outra e, como se sempre tivéssemos andado sem, saímos rodando por aí. Antigamente os dias eram mais divertidos.

Me responda uma coisa, quantos e-mails você recebe e responde por dia? Agora me diga, a quanto tempo você não recebe ou escreve uma carta? Não, correspondência bancária não conta. Pois é, a vida caminha e os tempos mudam, tem gente que até pra escrever encontra dificuldades hoje em dia, tamanha a dependência dos mouses e teclados. Antigamente os dias eram mais gostosos. Quem é que não se lembra dos cafés (ou chás) da tarde na casa de nossas avós? Café, bolachas e bolos… eu quase posso sentir o cheirinho.

boloMas o tempo passou e nós crescemos, as coisas simples, gostosas e divertidas hoje, para nós, são outras. Um almoço em família, risadas em um bar qualquer rodeado de amigos ou até mesmo um breve momento de solidão, um tempo só pra gente, coisas que nos remetem a tempos antigos, tempos que ficarão para sempre em nossas memórias, muito bem guardados em nossos corações. Não sei se os adultos daquela época irão discordar de mim, não sei se eles já viviam como loucos do mesmo jeito que vivemos agora, mas pelo menos pra mim foram outros tempos, tempos que talvez não voltem mais.

Ainda bem que eu era feliz e tinha plena consciência disso… Mas apesar das mudanças eu continuo sendo. Um grande abraço a todos vocês.

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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte – “Só mais um pouco”)

A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

serra

por Junião

Gambar era o nome do pequeno inferno, equivocadamente denominado restaurante, para onde fomos induzidos pelo carioca salafrário a almoçar. Reparem que bem pouco apropriada a razão social, pois Gambar lembra muito gambá. Aliás, a cozinha também lembrava, literalmente pelo cheiro… Mas não poderíamos mesmo esperar muito da indicação vinda de alguém que já tinha nos proporcionado um passeio nas águas quase tão horripilantes como as do Barqueiro da Mitologia Grega.

A princípio foi difícil até saber se o local era um restaurante, borracharia ou ponto de chapa. Um barraco improvisado tipo favela, gaiolas e restos de bicicletas enferrujadas jogadas nos também somente restos de telhado, predominância até cômica de sujeira e lixo por todos os lados, óbvia falta de licença sanitária afixada na parede, mesas e cadeiras encardidas espalhadas sem critério de disposição e vários outros nojentos adjetivos os quais prefiro não citar para eu mesmo não relembrar – principalmente no único banheiro sem porta, onde viviam felizes bactérias bem nutridas de quase dois quilos cada uma.

Esperamos uma cozinheira obesa e tão encardida quanto as próprias mesas terminar uma feroz batalha braçal contra um gato horroroso que tentava carregar um peixe da dispensa e pedimos algumas bebidas. O menu era um só e estava rabiscado nos azulejos imundos, junto a outras estranhas frases de ofensas a clientes problemáticos que provavelmente já haviam dado trabalho no estabelecimento. Claro que era mais fácil traduzir hieróglifos do antigo Egito que entender a caligrafia das frases. Apesar que nem foi necessário decodificar nada, já que não havia opção além de macarrão, feijão, quiabo e peixe. Certamente o cardápio mais sem nexo do Sistema Solar. Principalmente porque o peixe também parecia ter vindo diretamente da Mitologia Grega, pois tinha um monte de cabeças. Só tinha cabeça! A propósito, o dono da boca de porco, o “cumpadre” do maldito capitão Nersinho,  não se encontrava presente para nos recepcionar, pois estava em companhia de uma chipanzé na Mata Atlântica, uma linda macaca com quem ele mantinha diariamente tórridas relações sexuais. Amor selvagem de infância e antiga relação marital.

Panças cheias – de lixo – e lá fomos nós de volta à Ubatuba. E, como diria o louco Zagallo: “aí sim fomos surpreendidos novamente”… O coitado do Fiat 147 não aguentou o tranco e o câmbio estourou. Perdemos a segunda e a marcha ré em pleno movimento infernal de carnaval. A segunda até que dava para dar um nó judiando do giro do motor, mas a ré é imprescindível em qualquer veículo e, por tal, nos fez passar muita vergonha (mais ainda) em certos momentos. Não se pode andar só para frente nesse planeta. Até mesmo andarilhos de beira de pista andam para trás de vez em quando.

Nesses momentos é que a criatividade rural entrava em jogo. Um de nós pegava a jurássica máquina fotográfica e os outros se posicionavam lado a lado para um falso retrato com as bundas encostadas na parte frontal do capô. Levemente, sem alardes e com sorrisos estúpidos nas caras empurrávamos o carrinho só com as pernas, até uma posição de saída para frente. Manobramos dessa forma em postos de combustíveis, estacionamentos nas avenidas beira mar e diversos outros points. Fizemos isso várias vezes nos dias que por lá ainda ficamos e nenhuma das lindas mulheres com as quais continuamos a nos encontrar percebeu nosso problema mecânico. Claro que não perceberam, pois nenhuma olhava para nós.

E assim belos e lindos momentos se passaram. Rolaram mais alguns imprevistos como beber água de côco que na verdade era de torneira – fomos novamente enganados num quiosque periférico – e uma quase briga com dois mulatos enormes que não gostaram de uma inocente brincadeira feita pelo Binga. Os dois caras juntos tinham quase cinco metros de altura e pelo menos trezentos quilos, além de serem mestres em Muai Tai Shin Shuai, categoria “Kno Ksu Kau” – furiosos demônios lutadores, arrancadores de cabeças, moedores naturais de ossos, destruidores de lares felizes, fazedores de viúvas, multiplicadores de órfãos, distribuidores de dor e apreciadores do sacrilégio alheio.

A volta para Araraquara deu-se de forma ainda pior em virtude do problema no câmbio, principalmente na subida da serra. Tínhamos que quase explodir a rotação do velho motor ao máximo em primeira e depois passar direto para terceira. Era um urro insuportável junto a muita fumaça e em seguida um “uommm uommm uommm” bem lerdo. Por várias vezes o carro quase engoliu o ronco e começou a descer na contra mão. Por isso mesmo, apesar do trânsito muito intenso, por onde nós passávamos não ficava ninguém perto. Num raio de cem metros para frente e para trás só dava a “Família Buscapé Araraquarense”.

Por mais incrível que possa parecer nós voltamos várias vezes com o mesmo pau velho para a mesma Ubatuba. Alguns amigos novos como Tico Preto e Lemão Dentão se revezaram e também participaram das outras empreitadas, igualmente repletas de imbecilidades e cafonices. E ele, o Fietão 147, apesar do conforto zero e segurança nada, nunca nos deixou na mão. Foram muitas mais reais provas da existência de Deus.

Em breve contarei a linda façanha do pai do meu cunhado que, em virtude do alto teor etílico, viveu feliz por muitas horas na casa de um vizinho, certo que estava na residência dele. Imaginem o tipo, simplesmente errou o endereço e não percebeu…  Abraços e até breve. Junião.

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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte Final)

A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

paraty

por Junião

Éramos realmente muito imbecis em todos os aspectos, tanto que não sabíamos nem mesmo da existência de um grande posto da Polícia Rodoviária Federal, na divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Fomos parados numa blitz e as palavras do militar vieram do fundo da alma: “Santa Mãe de Cristo… Vocês só podem estar de brincadeira comigo!” Isso “só″ porque o carro era desgraçado como já descrito, sem nenhum item de segurança, nós descalços e sem camisa, estávamos bêbados da noitada anterior e ainda bebendo na pista – inclusive jogando as latas vazias pela janela – e demais afrontamentos contra várias regras e qualquer bom senso social. Não tínhamos sequer um maldito selo pedágio colado no vidro dianteiro, obrigatório na época. Aliás, mal tínhamos vidro.

Após uma breve negociação sem nenhum argumento lógico com um bondoso tenente, o cara nos liberou por pura piedade em meio a mais palavras diretas: “Eu não vou acabar com o fim de semana de vocês se cumprir severamente a lei, vou acabar com o ‘meu’ fim de semana, com meu mês e até meu ano! As canetas da base não serão suficientes, tampouco os blocos de multas! Desapareçam da minha frente já, estúpidos do mato, e cuidado com uma cachoeira linda que tem ali na frente. Se esses dois gorduchinhos rolarem lá para baixo vai ser uma cruz para resgatar.” Os dois gorduchinhos eram Nizão e John. Inclusive isso continua assim até hoje.

Eles não capotaram lá para baixo como advertiu o bom policial, mas quase uma outra tragédia tomou o espaço. Realmente a cachoeira era linda e logicamente paramos para nos refrescar um pouco. Conhecer tudo era nosso lema. Lindo lugar, apesar da quantidade inacreditável de mosquitos borrachudos bebedores de sangue. Eram tantos que voavam até em formação de ataque aéreo e alguns mais pareciam beija flores de tão bitelos.

A cachoeira era realmente bem alta e perigosa, mas eu, idiota maior, mesmo assim parei próximo ao precipício com vontade infantil de mergulhar. Os meus queridos amigos, além de não me desencorajarem a fazer besteira, ainda por cima mentiram dizendo que muitos já haviam saltado lá para baixo, que era uma delícia e demais incentivos provocadores. Antes mesmo que pudessem mudar as frases, lá estava eu descendo como um cometa rumo ao desconhecido. Sim, desconhecido, pois ninguém ainda havia pulado coisa nenhuma. Por Deus deu tudo certo. Passado o susto dos mentirosos após minha heróica barrigada no fundo do poço a coisa virou festa. Todos, até desconhecidos, começaram a mergulhar também. Mas se a “poça” lá embaixo tivesse somente um palmo de água ou fosse lotada de pedras e galhos, eu certamente seria recolhido com uma espátula e voltaria para Araraquara numa caixa de sapatos – sapatinhos infantis…

Parati – RJ, outro lugar maravilhoso que nos saltou aos olhos caipiras. Mais mulheres maravilhosas por todos os lados, um mar de cor indescritível e linda arquitetura. Apesar que a arquitetura era o de menos para nós, ogros sem cultura. Como eu já disse a viagem toda era uma grande descoberta de tudo e, por tal, queríamos viver o máximo possível que nossas carteiras minguadas permitissem. Resolvemos em consenso abusar e alugamos um barco para navegar pelas belíssimas águas da região, águas lotadas de iates cinematográficos. O problema é que nos precipitamos na negociação e caímos facilmente na lábia de um carioca safado.

Eu mal tenho coragem de chamar nosso transporte de “barco”, em todo caso ele pelo menos flutuava. Se bem que para quem havia chegado até ali num Fiat escangalhado, aquela desgraça aquática estava bem compatível. Pequeno, feito de madeira que soltava farpa como porco espinho, coberto com uma lona de caminhão amarela indecente e tocado por um fundido motorzinho lazarento que soltava muita fumaça preta. Parecia uma queimada de cana em pleno mar enquanto navegava. Também não contava com coletes salva vidas nem outro item qualquer de segurança. Ou seja, um verdadeiro irmão marinho do nosso veículo terrestre. Sem contar que o lixo aquático estava amarrado a quase duzentos metros da praia e nosso capitão, um tal de “Nersinho”, nos fez ir a pé até ele. “Podem andar sossegados que a água só pega no queixo nesse trechinho”, disse o maldito. Só que ele mesmo, o guia turístico do inferno, passou por nós num caiaque e nos esperou enxuto na imponente embarcação. E mais sofrimento…

Nos ajudamos em conjunto e, apesar da dificuldade pela falta de escadinha, todos conseguimos embarcar; todos menos Nizão, o mais pesado e desajeitado. Ele grudou na proa e somente uma perna e um braço foram para dentro, o grande resto ficou pendurado no casco com ondas estourando nas costas largas. A cena mais parecia filme de terror nos oceanos, onde gigantescos monstros marinhos atacam embarcações com sede de destruição. O gordão urrava e balançava tudo nas tentativas de entrada e nós gritávamos desesperados em virtude do prematuro naufrágio eminente. Todos gritávamos, principalmente o “Capitão Nersinho”. Após o barquinho chacoalhar embicar na água como se fosse de brinquedo, Deus ajudou e o “Kraken Obeso” veio também a bordo.

Para quem não sabe o Kraken é uma apavorante e descomunal criatura da mitologia Nórdica que destruía caravelas sem maiores explicações e com fúria infinita. A propósito, perceberam que esses tais monstros das negras profundezas sumiram de cena há muito tempo? Talvez porque encarar as frágeis caravelas de madeira das suas épocas fosse mais fácil que peitar um atual poderoso porta-aviões nuclear Americano, armado com altos calibres até nos documentos. Nem monstros não são bobos…

E por falar em poderosos navios, partimos mar adentro naquelas absurdas condições mesmo. O duro é que passavam tirando fina de nós e sem nenhum respeito os iates cinematográficos já mencionados, com suas deliciosas tripulantes bebendo champanhe e trajando somente a parte de baixo de micro biquínis, e nossa canoinha balançava cada vez mais com as ondas fortes criadas pelos imponentes reis do pedaço. Parecia que estávamos num liquidificador. Rolou de tudo no micro cruzeiro de pangarés onde entramos como alegres passageiros e saímos sobreviventes traumatizados, mas no fim, com a graça de Netuno, tudo acabou bem, apesar do rastro de vômito múltiplo que deixamos pelo trecho percorrido.

No título eu disse que essa seria a parte final, mas tenho que continuar só mais um pouco em breve. Sim, preciso continuar mais um pouco, pois o tal carioca salafrário nos ludibriou ainda mais. Ele conseguiu nos convencer a almoçar no restaurante “de primeiro mundo de um compadre dele”. E nós, apesar da há pouco furada marítima vivida, aceitamos a sugestão. Tome mais fumo para os estúpidos do mato… Abraços e até. Junião.

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A máquina do tempo e a terrível mensagem

por Junião

thetimemachine

Sempre que necessito de um tempo somente comigo mesmo, saio com minha motocicleta rumo a algum destino o qual nunca sei de antemão qual será. Paro em uma cidadezinha desconhecida qualquer, sento-me numa mesa de bar igualmente desconhecido e entre goles de cerveja ponho-me a pensar na vida. Gosto do silêncio desses lugares, identifico-me bastante com a simplicidade interiorana geral, amo o anonimato total e principalmente adoro observar sem ser observado.

Quantas pessoas diferentes com suas tantas histórias pessoais guardadas em segredo. Os olhares transpassam alegrias e dores, e os comparativos com quem sou e o que tenho muito ensinam. Pensar com calma, sinceridade e cristalinidade é sempre um santo remédio. Todos deveriam experimentar constantemente momentos em companhia apenas de si. Os conselhos e direcionamentos da própria alma são invariavelmente os mais sábios, desde que se esteja em real paz com seu interior.

Recentemente, em mais um desses necessários solitários programas, acompanhei uma triste e preocupante cena. Bem próximo a mim um homem esquelético, maltrapilho, sujo e de feição muito judiada revirava uma lata de lixo como um cachorro de rua. Mas ele não era um animal qualquer, teoricamente era um “homem”…

Certamente o pobre garimpava desesperado em busca de algum resto para satisfazer seu estômago que, como o de todos, exige alimento várias vezes ao dia, sem compreender as dificuldades externas que possam impedir tal imprescindível atendimento a essa necessidade básica. A fome não aceita desculpas. No instante em que eu me levantava para tentar auxiliar em algo e diminuir um mínimo que fosse aquele sofrimento, um outro homem aproximou-se e parou bem ao lado do pobre diabo faminto. A diferença básica entre eles é que esse outro pilotava uma ainda nem emplacada BMW X6 – um veículo modelo SUV de muitos milhares de dólares – e trajava um belíssimo terno de preço igualmente alto, imagino.

Esse segundo personagem estacionou seu imponente bem de consumo a poucos metros do esfomeado semelhante e desceu apressado, como é comum se notar na vida dos que muito tem. Os endinheirados estão sempre em estado de inquietação máxima. Certamente maquinando sem parar em busca obsessiva de mais conquistas ou, em outros casos, com medo de perder qualquer mínimo grão do que já possuem. Pessoas distantes de Deus não aceitam pacificamente perdas financeiras, por isso tanto temem e sofrem inutilmente. Sentei-me novamente apenas para observar com máxima discrição o desenrolar do encontro entre aqueles mundos tão distantes inacreditavelmente vivendo nesse mesmo mundo e, para minha própria decepção, o óbvio aconteceu: eles simplesmente não se notaram…

Um simplesmente não se deu conta da existência do outro, ali naquele momento cara a cara. Nem o esfarrapado esquelético olhou com cobiça para o ser indescritivelmente superior ao seu lado, tampouco o ser indescritivelmente ali sim superior percebeu a existência daquele que quase rastejava – a indiferença do segundo personagem foi ainda pior e muito mais absurda, claro. Eles sequer se olharam. Parecia uma invisibilidade recíproca, como se aquela discrepância extrema de situações fosse mesmo normal.

E exatamente aí é que está o crescente e eminente perigo, isso realmente começou a se tornar algo tão natural nesse maldito mundo de dois lados tão distantes, que muitos não mais sequer enxergam tal horrível diferenciação clara como o sol. Tudo tem se tornado tão corriqueiro quanto assistir a um filme qualquer. O abismo divisor é cada vez mais largo e profundo.

Continuei sentado com um imenso nó que queimava dentro do peito. Observei em silêncio e inerte o desprivilegiado distanciar-se com lentos e cambaleantes passos rumo ao nada, carregando numa das mãos algo que dividia com centenas de moscas varejeiras. Vi também o tão supostamente agraciado pelo destino sumir no horizonte, deixando um breve rastro de poeira. Foi uma rápida parada só para um refrigerante. Rápida para ele, pois para mim foi uma indigesta eternidade de poucos minutos. Há muito eu não me decepcionava tanto por fazer também parte do que orgulhosamente dizemos ser uma civilização em evolução inteligente…

A princípio esse triste relato pode parecer apenas mais um entre incontáveis casos de máxima desigualdade social, os quais assistimos sem reação com cada vez mais frequência. Mas não, esse caso, assim como tantos outros, contém uma terrível mensagem bem mais grave nas entrelinhas. Não é somente mais um horrível conto real carregado de utopia e que serviria para mais uma lacrimejante e inútil melodramática matéria televisiva. Infelizmente inútil sim, pois em nada de concreto resultam tais matérias além de alguns momentâneos pontos a mais no nojento e tão disputado ibope. Mas o problema é bem maior que a desprezível briga entre os canais.

timemachineUm dos mais fantásticos livros que eu já tive o prazer de devorar chama-se A Máquina do Tempo (The Time Machine), escrito em 1895 pelo igualmente fantástico escritor britânico H.G. Wells. Inclusive o cinema fez algumas adaptações para a telona dessa centenária maravilhosa história de ficção científica. Nessa obra o autor conduz com maestria uma evolução humana “teoricamente fictícia” que culmina numa subdivisão natural onde somente duas raças distintas permanecem. Isso, no livro, num futuro por volta do ano de 800.000 DC – mais de oitocentos mil anos à frente. Essas duas raças são absolutamente opostas em todos os sentidos e formas sociais.

Uma vive em máxima harmonia num verdadeiro paraíso terrestre, a superfície de um planeta já totalmente recuperado das catástrofes nucleares e infinitas destruições do passado. Esses seres são calmos, inteligentemente desapegados ao material, absolutamente pacíficos, têm as lindas aparências normais do humanos, todos vestem simples trajes brancos e a natureza lhes presenteia com tudo que necessitam para viver. Porém, toda essa indescritível calma na coexistência geral os tornam também indefesas presas da única outra raça. São, na verdade, o alimento desses que um dia foram seus… semelhantes.

Essa segunda, ao contrário de todas as qualidades dos desafetos de uma evolução incoerente, habita o frio e escuro subsolo e o que ainda restou de nojento esgoto, são deformados, asquerosos e têm hábitos monstruosos. Foram há muito abandonados pela luz e as dificuldades indescritíveis, a vida somente com restos e a necessidade de sobrevivência os transformaram em verdadeiros animas irracionais não mais conhecedores do bem. São furiosos predadores que fazem do ódio sua única linguagem. Sua genética veio com os milhares de anos se readaptando de acordo com o “sujo lixo” para onde foram jogados e, por tal, “restos humanos” se tornaram. Restos vivos resultantes de discriminações e desigualdades, não mais interessados em coexistência pacífica. O ponto final da criação por nós mesmos iniciada.

Agora vamos as terríveis entrelinhas da realidade atual e sua coerência com a horrível profecia do livro. A própria ciência, baseada inclusive nas teorias de seleção natural de Darwin, defende e acredita que os seres vivos são capazes de inacreditáveis mudanças naturais com o tempo para adaptações e vitória sobre qualquer tipo de adversidade que possa por a existência em risco. Principalmente nós, seres humanos. Isso é uma espécie de dispositivo de segurança da vida para proteger a própria vida. Um exemplo claro disso, entre outros, é a extrema e quase inexplicável fertilidade tanto feminina quanto masculina entre os sofridos povos de áreas miseráveis castigadas por secas, fome e demais tragédias. Apesar das dificuldades e da falta de tudo, a vida encontra um jeito e as reproduções se dão em abundância. A vida dribla a ausência total de recursos, de necessidades alimentares, de suportes médicos, de saneamento e simplesmente faz a sua parte.

Porém, que tipo de seres humanos estarão surgindo nessas situações onde o esgoto é literalmente a única opção de existência e fonte de recursos? Que tipo de mutações e redirecionamentos genéticos já há muito se iniciaram diante dos nossos cegos olhares? Que mudanças no DNA certos “irmãos” já estarão sofrendo por tanto disputar alimento com urubus nos lixões onde sobrevivem?

O mundo sempre foi um furioso mar de desigualdades  materiais e partilhar conquistas uma linda virtude bem mais teórica que prática, mas de tempos para cá a situação só piora a olhos vistos. A festejada globalização expõe diretamente os que nada tem aos bens que jamais possuirão. As cada vez mais velozes informações e fatos colocam lado a lado dois lados tão impossíveis de se misturar quanto água e óleo. Mansões cinematográficas e favelas desumanas que mais parecem chiqueiros, separadas apenas por um alto muro equipado com cerca elétrica e demais itens de suposta segurança. Vitrines e outros meios de comunicação visual que mostram bens, delícias e guloseimas as quais as mãos de incontáveis jamais tocarão. Veículos também cinematográficos e blindados parados em engarrafamentos defronte a pontilhões onde crianças deitadas num chão gelado disputam um sujo cobertor sob o que chamam de “casa” e assim por diante.

Infinitos são os exemplos que mostram a diferença entre o que acontece hoje referente a “proximidade inaproximável” e o que acontecia no passado. Há não muito tempo até mesmo as informações eram privilégios somente dos ricos, televisão era artigo de luxo e assim por diante. Bem diferente da atualidade. E, como dizem, o que os olhos não veem o coração não sente. Por isso as diferenças eram menos diretamente sentidas na pele. Ao contrário da terrível atualidade…

E são exatamente essas crianças que disputam hoje cobertores sujos sob os pontilhões os quais chamam de casas e lutam por restos de alimentos como animais selvagens, que gerarão outras crianças nas mesmas condições absurdas de somente luta contra tudo e contra todos; e assim sucessivamente. Então as indigestas e apavorantes perguntas: onde tudo isso culminará de fato? O que será das gerações futuras desses que agora naturalmente se procriam em alta velocidade entre ratos? Quanto tempo temos antes desses ainda seres humanos começarem a aceitar realmente o imundo subsolo como único lar definitivo e, posteriormente, iniciarem suas vindas à superfície apenas para “caçar” os teoricamente evoluídos? Serão mesmo necessários oitocentos mil anos, como no livro, ou nossos netos já correrão os riscos de tornarem-se indefesas presas fáceis dos monstros da nossa própria criação?

Esqueçamos os lados espirituais dos fatos, sobre certos merecimentos de sofrimentos aqui nesse plano, e pensemos só resultados futuros dos nossos atos presentes. Quem hoje convive e divide comida com baratas e vermes, não tem como gerar algo muito diferente do que sua cruel realidade impõe.

O mundo atual já conta com aproximadamente seis bilhões de habitantes. Seis bilhões de formas diferentes de existência, seis bilhões de personalidades únicas, seis bilhões de pensamentos particulares e seis bilhões de livres decisões sobre os próprios passos. Não importa como e da melhor forma que se viva, essa forma invariavelmente será errada para os outros. É comum o natural egoísmo dos homens auto permitir julgamentos precipitados e, com isso, ver erros somente nos demais.

Entretanto, apesar de toda essa natural facilidade de desaprovação geral para com os alheios, uma única preocupação deveria tornar-se “já” unanimidade: a exata preocupação real com os que cada vez mais se escondem nas sombras. Não somente por medo de um negro futuro, e sim porque eles são “sim” nossos semelhantes. Todas as crianças nascem anjos, mas podem se tornar terríveis demônios durante a própria jornada. Por tal cabe a nós, adultos presentes, evitar essas horríveis transformações antes que elas sequer se iniciem. Afinal, não há regra mais sábia e simples que a antiga “é melhor prevenir que remediar”. Partilhar o mundo e tudo que nele existe a princípio pode parecer tarefa impossível, mas não há grande feito que não parta do que a princípio impossível parecia. Lembre-se sempre que seu dinheiro, não importa qual quantidade possua, só lhe trará felicidade de verdade se for também usado para o bem de outro alguém. Os donos partem, mas as moedas ficam. Assim como ficam também os reflexos bons e ruins do seu uso. Uma montanha não pode ser removida por somente dois braços, mas se cada um carregar uma pequena pedra, não há montanha que permaneça no mesmo lugar… Abraços. Junião.

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Só mais uma noite de quinta

por Tiago Pereira

breja

Da sacada desse apartamento eu não consigo ver muita coisa. Na verdade quem está sendo observado aqui, sou eu. Olhos por todos os lados seguem todos os meus movimentos, ouvidos enormes sugam os meus segredos, me sinto preso, sufocado. Através da janela eu apenas vejo mais janelas e algumas pontas de prédios que se esticam tentando tocar o céu. Até o vento frio veio me visitar nessa noite silenciosa, fechei a persiana da sala e ele se esvairiu por debaixo da porta.
O silêncio é sempre quebrado por um carro qualquer que passa pela rua ou por um vizinho mal educado que teima em ouvir música alta e ainda cantar junto com o rádio. A cerveja acabou e eu tento me distrair com a televisão, porém ela só me deixa mais confuso. O Lula é ou não é um bom presidente? O mundo está ou não está em crise? Sinceramente não sei, eles não se decidem. Quanto ao Lula eu não ousaria responder, mas quanto à crise, eu acredito nela, afinal de contas, a minha cerveja acabou.
Droga, 20:40h, o mercadinho já fechou!
Um livro, uma música, um banho, não necessariamente nessa ordem, mas então, em qual ordem? Um banho ouvindo música e depois um livro? Ouvir música lendo um livro e depois tomar banho? Ou será melhor tomar banho lendo um livro e não ouvir porra de música nenhuma? Eu gosto de música, mas é que o chato do vizinho ainda não parou de cantar.
Droga, realmente acabou minha cerveja, até na gaveta de legumes eu já procurei e nada, não restou nenhuma. Vou sair cadê minhas chaves? Chaves, chaves, chaves. Na fechadura é claro. Camiseta, shorts e chinelo de dedo, chego na esquina e tudo está apagado, nenhum movimento em nenhum lado, realmente, o mercadinho já está fechado. Nossa, quando pensei que as coisas não poderiam piorar eu me lembrei que está fechado e cheio de cerveja lá dentro… também deve haver alguns petiscos.
Esmurro a porta de aço na esperança que algum vigia camarada apareça e me arrume uma lata gelada, mas infelizmente ninguém vem. Apenas uma luz do outro lado da rua se acende e alguém assustado com o barulho dos meus socos espia por entre as frestas da janela na busca por algum delinquente. Não meu amigo, aqui não tem nenhum marginal, somente um trabalhador com muita sede.
Mais alguns murros e apenas mais silêncio. Por um vão entre as portas do mercadinho eu consigo observar lá dentro, daqui eu posso ver as geladeiras cheias delas, todas estão iluminadas e bastante convidativas, bem ao lado das prateleiras com amendoins e salgadinhos, esses que engordam a gente só de olhar. Mas espere um pouco, porque as luzes daquelas geladeiras estão todas acesas se o mercadinho está fechado e eu não posso comprar nem ao menos uma cerveja? Estão de brincadeira comigo, deve ter algum vigia aí dentro me sacaneando…

Mais socos…
Droga, o mercadinho está fechado e não há um único e maldito vigia para me ajudar, é melhor eu voltar pra casa, outras luzes na vizinhança então se acendendo, tem até gente saindo pra fora pra ver o que está acontecendo. Definitivamente as coisas não estão boas para mim. De volta ao meu apartamento eu decido que é melhor eu tomar banho ouvindo música (em um volume mais alto que o meu vizinho cantor) e depois tomar um copo de leite e tentar ler um livro, isso se ele (o vizinho) deixar.
Faço isso e quando saio do banho parece que a paz voltou a reinar. Muito silêncio e paz ecoam por todos os cômodos. Me dirijo a cozinha pra pegar um copo de leite na geladeira, não sou de tomar leite, mas se for pra tomar que seja gelado e com bastante achocolatado. Puxo a caixinha que estava lá no fundo, perto da margarina, e alguma coisa brilha em minha vista. Uma filha única, escondida atrás da caixa de leite, linda e trincando. Deixo o leite em cima da pia e meio que afoito busco a lata solitária que de imediato gela as minhas mãos.
Pelos próximos minutos fazemos companhia um para o outro e quando ela chega ao fim percebo que minha sede só aumentou. Rapidamente uma ideia me vem à cabeça…
Droga, o mercadinho está fechado! É melhor eu ir dormir.
Quanto ao leite? Nunca mais comprei.

____________________

* Esse texto foi publicado anteriormente no blog SeuModesto, no dia 16 de abril de 2009.

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2012 – Fantoches do destino

por Junião

fantoche

Muitos anos já se passaram, mas constantemente me lembro da triste história de uma grande e, até então, feliz amiga. Sua beleza natural era irretocável, por tal chamou rapidamente a atenção de diversas agências de modelos. Os atributos levaram em pouco tempo seu belo rosto para diversos anúncios de mídia geral. Ainda me lembro da alegria contagiante e da euforia explícita ao contar, numa animada mesa de bar, sobre seu primeiro convite profissional de grande porte, em parceria com uma famosa loja de roupas íntimas femininas. Tudo mais parecia um maravilhoso e indescritível conto de fadas dos tempos modernos. Porém o destino, nem sempre tão amigo quanto gostaríamos, interveio ao seu próprio modo. Interveio sem avisar, sem pedir permissão, sem prévia satisfação, sem nada. Apenas interveio ao seu próprio modo…

Um aparentemente simples desmaio numa das passarelas por onde caminhava com cada vez mais frequência levou ao horrível diagnóstico. Dias após alguns exames mais profundos seu fim estava determinado. Fim ao que sequer havia começado. Uma terrível doença exigiu imediata sequência de desgastantes tratamentos e, em consequência, foi-se o sonho como água por ralo abaixo. O terrível ralo da vida que carregou também seus longos e lindos cabelos que mais pareciam raios solares. Ela até que lutou como pôde com as poucas armas que tinha para enfrentar uma guerra antecipadamente perdida, mas não resistiu por muito tempo. No mesmo Dia dos Namorados do ano seguinte, época da primeira grande campanha, sua nova realidade de dor e sofrimento era inacreditável, além da beleza que também desaparecera por completo. Em apenas um ano, um mísero ano terreno, seu ilusório conto de fadas tornou-se um pesadelo real vivido segundo a segundo em todas as vinte e quatro horas que viraram intermináveis noites insones. A luz desaparecera da sua fria rotina de horas contadas. É difícil demais acordar, olhar pela mesma janela que as mesmas estrelas sempre iluminaram doces sonhos e saber que os planos futuros não existem mais. Até o fim de uma relação amorosa causa uma horrível sensação de incapacidade para sorrir, quanto mais saber, ainda em plena vida, que a própria vida já terminou. De repente, como manhãs que não mais amanhecem, os planos dela simplesmente não mais existiam e o promissor futuro restringiu-se a uma cama até a última batida do seu jovem coração.

Mas a questão aqui em pauta não é porque coisas ruins acontecem também à pessoas supostamente boas, muito pelo contrário. Entender porque desgraças acontecem à pessoas do bem requer um nível de espiritualidade que infelizmente pouquíssimos possuem. Apesar da simplicidade óbvia do livre arbítrio e das consequências dos atos em todas as fases evolutivas, é comum os mortais complicarem tudo que é exatamente simples. Por isso mesmo estão sempre desnecessariamente se perdendo entre crenças desconectas e atos contraditórios. E é esse o exato ponto dessa história, complicar tudo que é explicitamente… simples.

A curta passagem por aqui é uma mágica experiência repleta de oportunidades realmente “simples”, tão claras quanto o próprio ar que respiramos. A vida em si é a mais sábia e perfeita de todas as escolas, mas pouco útil para os incontáveis arrogantes que não fazem questão nenhuma em aprender algo. O ponto: se temos, como no triste caso da minha já não mais aqui presente bela amiga, um destino que a qualquer momento pode intervir ao seu próprio modo e destruir tudo o que sonhamos, então por que precisamos nós mesmos estragar sem motivos lógicos situações que estão boas, enquanto elas ainda estão realmente boas? Deixemos que os problemas e as tristezas sejam determinadas, se tiverem mesmo que acontecer um dia, por quem as determine com razão e sabedoria. Ele, o tal destino, encarrega-se disso. Não precisamos nós anteciparmos certas dores, maiores ou menores, que podem nunca chegar. Devemos unicamente aproveitar todo o tempo de alegria que Ele nos proporciona somente com… alegrias, claro. Não é difícil compreender esse ensinamento básico de felicidade e não é impossível por em prática a fórmula mágica de sempre tirar o melhor do pior, pois o que qualificamos de forma egoísta como pior, normalmente não é tão “pior” quanto estupidamente insistimos em tentar enxergar.

Um mistério muito cogitado no momento é o suposto fim do mundo marcado, de acordo com estudos do complexo calendário Maia, para Dezembro de 2012. Muitas pessoas estão começando a ficar realmente apavoradas com a profecia desse enigmático povo há muito extinto, tanto que recentemente o assunto foi aproveitado até pelo cinema. Eu só não entendo exatamente porque tamanha preocupação geral com um suposto fim do mundo pré-marcado, se na verdade seus mundos pessoais há muito estão acabando ou até já acabaram em casos múltiplos, mesmo com essas pessoas ainda vivas e saudáveis. Não existe futuro bem planejado se o presente não for devidamente respeitado e principalmente muito bem aproveitado.

Esqueçamos as autoridades e os incontáveis políticos corruptos, que deveriam estar no topo para nos servir e proteger, mas que na verdade só pensam e agem por e para si mesmos. Esqueçamos os marginais e assassinos que ceifam vidas com frieza indescritível e indiferença inexplicável, como se tivessem mesmo real direito a tais determinações de fim. Esqueçamos os poderosos apodrecidos pela satânica influência do dinheiro, que em nome único do acúmulo material desenfreado sujam-se com sangue, degredam e destroem o mundo, como se o mundo realmente pertencesse somente a eles. Esses casos clássicos não devem temer Dezembro de 2012, esses pobres Diabos deveriam temer a “eternidade”, pois convictos de um poder que não possuem cavam com as próprias mãos um infinito buraco rumo ao inferno. São cruéis e impiedosos inquisidores da própria alma. Citemos casos mais corriqueiros e comuns nos dia a dia, casos mais próximos ao plano popular de existências também se despedaçando.

fantoches

Quantas pessoas são inexplicavelmente mal humoradas e incomodam-se com tudo e com todos, como se a felicidade alheia fosse um estorvo de proporções épicas. Desentendem-se com vizinhos e demais semelhantes por questões absurdas e mínimas, jamais esboçam um sorriso ou pronunciam qualquer palavra de afeto e estão sempre armadas e prontas para uma guerra que só existe na suas próprias cabeças medíocres. Sobrevivem trancafiados em suas casas, com os rostos colados somente a nociva tela da televisão, sem se dar conta que o lindo sol lá de fora não cobra preço algum para aquecer…

Quantas pessoas fazem das suas palavras cruéis e mortíferas lanças envenenadas, tendo como objetivos somente conflitar ambientes e abalar a paz. São inadvertidas que se esquecem até mesmo das suas próprias vidas enquanto cuidam das vidas alheias, semeando discórdia e distribuindo comentários sobre posturas supostamente incorretas de acordo com suas nojentas óticas pessoais – invariavelmente bem mais equivocadas que as dos severamente julgados. Quem faz mau uso da língua nada mais consegue além de contabilizar desafetos, e a vida sem amigos não faz sentido. Pensar antes de balbuciar bobagens e ponderar com sincero bom senso antes de jogar lixo ao vento é um dom divino que nos foi dado a todos, pena que tão poucos façam uso desse importantíssimo… dom.

Quantos casais – jovens namorados, noivos ou já casados – estragam constantemente momentos de alegria com base apenas na intolerância e agressividade nas cobranças sobre desagrados particulares, sem perceber que rotineiras discórdias desnecessárias vão tornando aos poucos a relação uma prisão perpétua. São pessoas que buscam nos parceiros ou parceiras uma perfeição que também não possuem, mas nunca encararam o espelho de forma sincera para chegar a essa simples conclusão. São pessoas que têm o triste poder para, repentinamente, transformar o mais lindo dos dias ensolarados na mais assustadora tempestade. E essa mesma tempestade desaba, posteriormente, em forma de lágrimas inúteis, demorando em certos casos muito tempo para se dissipar. E nessa curtíssima vida onde o calendário não deixa um só dia de nos mostrar o quanto os dias passam ligeiros, qualquer perda de tempo com atritos totalmente evitáveis é uma estupidez sem precedentes.

Quantas pessoas que por comodismo ilusório não têm coragem para se arriscar em novas carreiras profissionais ou mudar qualquer outra situação que lhes aflige, mesmo com todo o mal que sabem estar vivenciando.

Quantas pessoas jamais tiram seus sonhos das gavetas e morrem sem ao menos tentar expor suas idéias, por mais tolas que possam a princípio parecer. Existem também os que têm sonhos, têm coragem e possuem inclusive recursos para as realizações, porém lhes falta tempo para si mesmos. Esses casos são ainda piores, pois de que vale então seu dinheiro? Quem é realmente o dono de quem?

Quantas pessoas se sobrecarregam com pesadíssimos fardos maquiados como estúpidas regras sociais absolutamente descartáveis e, dessa forma, não conseguem caminhar leves por nenhum metro sequer da jornada. Também não percebem que com tal peso não passam de verdadeiros escravos bem vestidos, presos a um sistema que cada vez mais vicia com seu desenvolvimento tecnológico prometedor de facilidades.

2012

Quantas são as pessoas que nunca têm um só minuto para seus próprios filhos e filhas, mesmo com o mentiroso auxílio desse tal desenvolvimento tecnológico mencionado que, teoricamente, deveria nos proporcionar exatamente mais tempo. Mentiroso sim, pois essa demoníaca parafernália cibernética muito mais nos rouba do que dá. Isso além da correria em busca de melhores posições e as atribulações infinitas, pois não importa o quanto já se tenha conquistado, “mais” sempre será necessário aos olhos dos que nada enxergam. O pior é que essa absurda cegueira não permite perceber que não basta somente presentear com a mais cara das bicicletas, é preciso também aproveitá-la juntos numa praça qualquer. Por isso é comum ver tantas crianças, na importante fase de desenvolvimento, apegando-se cada vez mais as suas babás do que aos verdadeiros tão ocupados pais. As crianças não podem e nem devem se enquadrar aos compromissos dos adultos, mas os adultos sim podem e devem voltar a serem crianças sempre que tiverem vontade, sem preocupações idiotas sobre as opiniões ao redor. Esse é o infalível remédio para a sonhada eterna juventude. Nosso interior só envelhece se nós mesmos permitirmos…

Entendem as inadvertidas contradições cometidas? E tudo pela exata simples falta da “simplicidade” nos pensamentos e, consequentemente, nos atos posteriores. Quase tudo pode ser evitado ou, no mínimo, radicalmente aliviado. Brigas descabidas, sofrimentos antecipados, premeditadas vinganças destruidoras, julgamentos precipitados, tristezas decorrentes de falhas desnecessárias, preocupações exageradas com o que ainda nem aconteceu, medos de proporções bem maiores que realmente merecem, falta da necessária calma em todas as situações e assim por diante. Quem planta vento, colhe furacão e quem busca incessantemente problemas acaba por encontrá-los, mesmo que eles não existam. Não há felicidade que resolva e que baste para quem só faz por embutir na própria mente que é infeliz. Em contrapartida não existe infortúnio que roube o sorriso de quem se contenta com o que tem, mesmo que mínimo seja.

Felizmente para alguns e infelizmente para muitos e muitas, somos por aqui realmente meros fantoches do tal destino, tanto acima citado. Nós fazemos nossos planos e Ele faz o dele. O complicado é que sem respeitar nem diferenciar ricos de pobres ou crentes de céticos, é o plano dele que sempre vale…

Por isso se o mundo acabar mesmo em Dezembro de 2012, o fim nada mais será que outra das suas brincadeiras para conosco. Ele, que às vezes resolve nos agraciar com indescritíveis deliciosas surpresas e em outros casos de repente nos coloca a prova com dores insuportáveis.  Entretanto, como também mencionado acima, muitas mesmo são as pessoas que não precisam de uma “explosão total e final” para que suas existências terminem nesse plano. Muitas já há “muito estão mortas por dentro”, só não perceberam ainda. Diante disso o importante é viver sem estar enquadrado nesse equivocado grupo de águias cegas. O importante é viver bem e o mais livre possível de excessivas imposições de uma sociedade que cada vez mais toma em troca de cada vez menos. Literalmente ouro de tolo… Não importa quais “movimentos de bonequinhos” no palco chamado Terra Ele nos proporciona, o importante é viver fazendo sempre o melhor possível para que Ele tenha cada vez mais orgulho de aqui nos ter colocado, enquanto aqui estamos. O real triste caso do início desse texto é mais uma prova do quanto devemos ponderar sobre o que verdadeiramente vale à pena, e o que nenhuma importância tem. Reflitam e tenham um feliz… “2012”.

Abraços sinceros aos amigos e amigas que com seus acessos e incentivos tanto têm nos ajudado a fazer desse Blog mais um sonho realizado. Junião.

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Já é Copa?

por Tiago Pereira

copa

Junho de 2010 e o povo brasileiro se vê às vésperas de mais uma Copa do Mundo de Futebol. É como se fosse carnaval, a única diferença é que acontece somente de quatro em quatro anos e o pais pára por um mês inteiro, podendo esse tempo se prolongar por período indeterminado caso a nossa seleção conquiste a taça.

O mais engraçado nessa época é que as ruas, casas, prédios, monumentos e cidades inteiras são decorados com o verde e o amarelo da nossa bandeira. E é nesse período que aparecem também os patriotas sazonais, aqueles que defendem com unhas e dentes o nosso pais quando o assunto é futebol, mas só de quatro em quatro anos. É bandeira na sacada, fitinhas na antena do carro, camisa da seleção que custou, aproximadamente, 180 reais, churrasco, cerveja e “tombo” no trabalho.

É um momento mágico. Basta os selecionados entrarem em campo e tudo o que há poucos minutos eram problemas sem soluções, simplesmente desaparecem. Não existe mais fome, desemprego, políticos corruptos, o atendimento em nossos hospitais públicos é de primeiro mundo e o salário mínimo dura muito mais que um mês. Durante esse um mês todo mundo tem dinheiro de sobra pra fazer churrasco toda semana e comprar muita cerveja.

Dizem que o “Rei” Pelé e o grande time do Santos dos anos 70 já fizeram parar uma guerra para que todos pudessem assistir a uma partida de futebol, então, me digam vocês, o que são cadáveres perto de um mês inteiro de Copa? Acho que nada.

Mas não pensem vocês que eu sou desses que torcem contra não, muito pelo contrário, eu também gosto de Copa de Mundo, não ter que ir trabalhar no horário do jogos, churrasco e cerveja, só acho que também seria muito interessante esse mesmo tipo de manifestação patriótica, como vemos aos montes nessa época, para exigir a aprovação do Projeto Ficha Limpa, por exemplo.

Talvez eu esteja sonhando um pouco alto, imaginando o país inteiro parado, com o povo nas ruas, a fim de mudar qualquer coisa que seja contra nós, lutando por impostos mais baixos, educação, saúde, moradia e tudo mais que qualquer ser humano necessite para viver com dignidade.

Talvez eu esteja sonhando um pouco alto mesmo, no pais do faz de conta, talvez eu devesse mesmo sonhar apenas com o Hexa.

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