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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte – “Só mais um pouco”)

A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

serra

por Junião

Gambar era o nome do pequeno inferno, equivocadamente denominado restaurante, para onde fomos induzidos pelo carioca salafrário a almoçar. Reparem que bem pouco apropriada a razão social, pois Gambar lembra muito gambá. Aliás, a cozinha também lembrava, literalmente pelo cheiro… Mas não poderíamos mesmo esperar muito da indicação vinda de alguém que já tinha nos proporcionado um passeio nas águas quase tão horripilantes como as do Barqueiro da Mitologia Grega.

A princípio foi difícil até saber se o local era um restaurante, borracharia ou ponto de chapa. Um barraco improvisado tipo favela, gaiolas e restos de bicicletas enferrujadas jogadas nos também somente restos de telhado, predominância até cômica de sujeira e lixo por todos os lados, óbvia falta de licença sanitária afixada na parede, mesas e cadeiras encardidas espalhadas sem critério de disposição e vários outros nojentos adjetivos os quais prefiro não citar para eu mesmo não relembrar – principalmente no único banheiro sem porta, onde viviam felizes bactérias bem nutridas de quase dois quilos cada uma.

Esperamos uma cozinheira obesa e tão encardida quanto as próprias mesas terminar uma feroz batalha braçal contra um gato horroroso que tentava carregar um peixe da dispensa e pedimos algumas bebidas. O menu era um só e estava rabiscado nos azulejos imundos, junto a outras estranhas frases de ofensas a clientes problemáticos que provavelmente já haviam dado trabalho no estabelecimento. Claro que era mais fácil traduzir hieróglifos do antigo Egito que entender a caligrafia das frases. Apesar que nem foi necessário decodificar nada, já que não havia opção além de macarrão, feijão, quiabo e peixe. Certamente o cardápio mais sem nexo do Sistema Solar. Principalmente porque o peixe também parecia ter vindo diretamente da Mitologia Grega, pois tinha um monte de cabeças. Só tinha cabeça! A propósito, o dono da boca de porco, o “cumpadre” do maldito capitão Nersinho,  não se encontrava presente para nos recepcionar, pois estava em companhia de uma chipanzé na Mata Atlântica, uma linda macaca com quem ele mantinha diariamente tórridas relações sexuais. Amor selvagem de infância e antiga relação marital.

Panças cheias – de lixo – e lá fomos nós de volta à Ubatuba. E, como diria o louco Zagallo: “aí sim fomos surpreendidos novamente”… O coitado do Fiat 147 não aguentou o tranco e o câmbio estourou. Perdemos a segunda e a marcha ré em pleno movimento infernal de carnaval. A segunda até que dava para dar um nó judiando do giro do motor, mas a ré é imprescindível em qualquer veículo e, por tal, nos fez passar muita vergonha (mais ainda) em certos momentos. Não se pode andar só para frente nesse planeta. Até mesmo andarilhos de beira de pista andam para trás de vez em quando.

Nesses momentos é que a criatividade rural entrava em jogo. Um de nós pegava a jurássica máquina fotográfica e os outros se posicionavam lado a lado para um falso retrato com as bundas encostadas na parte frontal do capô. Levemente, sem alardes e com sorrisos estúpidos nas caras empurrávamos o carrinho só com as pernas, até uma posição de saída para frente. Manobramos dessa forma em postos de combustíveis, estacionamentos nas avenidas beira mar e diversos outros points. Fizemos isso várias vezes nos dias que por lá ainda ficamos e nenhuma das lindas mulheres com as quais continuamos a nos encontrar percebeu nosso problema mecânico. Claro que não perceberam, pois nenhuma olhava para nós.

E assim belos e lindos momentos se passaram. Rolaram mais alguns imprevistos como beber água de côco que na verdade era de torneira – fomos novamente enganados num quiosque periférico – e uma quase briga com dois mulatos enormes que não gostaram de uma inocente brincadeira feita pelo Binga. Os dois caras juntos tinham quase cinco metros de altura e pelo menos trezentos quilos, além de serem mestres em Muai Tai Shin Shuai, categoria “Kno Ksu Kau” – furiosos demônios lutadores, arrancadores de cabeças, moedores naturais de ossos, destruidores de lares felizes, fazedores de viúvas, multiplicadores de órfãos, distribuidores de dor e apreciadores do sacrilégio alheio.

A volta para Araraquara deu-se de forma ainda pior em virtude do problema no câmbio, principalmente na subida da serra. Tínhamos que quase explodir a rotação do velho motor ao máximo em primeira e depois passar direto para terceira. Era um urro insuportável junto a muita fumaça e em seguida um “uommm uommm uommm” bem lerdo. Por várias vezes o carro quase engoliu o ronco e começou a descer na contra mão. Por isso mesmo, apesar do trânsito muito intenso, por onde nós passávamos não ficava ninguém perto. Num raio de cem metros para frente e para trás só dava a “Família Buscapé Araraquarense”.

Por mais incrível que possa parecer nós voltamos várias vezes com o mesmo pau velho para a mesma Ubatuba. Alguns amigos novos como Tico Preto e Lemão Dentão se revezaram e também participaram das outras empreitadas, igualmente repletas de imbecilidades e cafonices. E ele, o Fietão 147, apesar do conforto zero e segurança nada, nunca nos deixou na mão. Foram muitas mais reais provas da existência de Deus.

Em breve contarei a linda façanha do pai do meu cunhado que, em virtude do alto teor etílico, viveu feliz por muitas horas na casa de um vizinho, certo que estava na residência dele. Imaginem o tipo, simplesmente errou o endereço e não percebeu…  Abraços e até breve. Junião.

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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte II)

A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

camping

por Junião

“Socorro!” “Por Deus, saiam da frente!” “Santa Maria, dessa a gente não escapa!” “Cristo misericordioso e libertador dos sofridos, ajude na próxima!” “Agora é o fim!” Essas frases, entre outras de súplica sincera, ecoavam dentro do apertado Fiat e misturavam-se ao som chiado do velho tape TKR cara preta que tocava Ramones, Sex Pistols, Iron Maidem, AC/DC, Judas Priest, Slayer e cia ltda.

Claro que um carro naquelas condições, sem sequer estepe, também não contava com um sistema de freio eficaz e em ordem. A direção então não tinha folga, tinha “licença premia acumulada de funcionário público”. Por isso os gritos acima descritos. Demoramos, mas acabamos chegando na famosa Serra do Mar. Só não sabíamos que a maledeta era tão inclinada e cheia de curvas tão fechadas que permitiam ver até a placa de trás do carro, sem ter que sair do besta. Foi terrível descer aquilo a bordo daquilo em meio ao assustador movimento na estreita pista simples. E tome mais perigosíssimas finas – nos outros – a beira do precipício. Por pouco não chegamos por atalho, rasgando no peito a mata atlântica ladeira abaixo.

Após o longo calvário asfáltico e de muitos mais sustos noturnos (sempre mais nos outros que em nós mesmos) na bela rodovia Rio/Santos, alcançamos o nosso destino: a maravilhosa cidade de Ubatuba. Logo na entrada paramos para pedir informações sobre a localização de onde ficaríamos, ninguém queria perder mais tempo rodando sem rumo. John Igor, com voz de urso do interior com dor de garganta, solicitou tal a um casal de namorados surfistas e lá veio a resposta idiota: “Pô, brother, é moleza. Tu saca a ponte após o ancoradouro? Tu manja a gruta do cascalho mole? Tu pode crê na pedra da Mulata doce?

Tu se liga no riacho do bagre da cara úmida?”

Antes mesmo que a moça continuasse, John, com toda sua meiguice, foi direto: “Ô biscate descabelada, se eu sacasse, manjasse, me ligasse e pode crê tudo isso não teria parado aqui para pedir informação. Vaca salgada!” E ela retrucou na lata: “Turma de rurais! Trouxeram frango caipira com farofa nesse bagageiro desgraçado e enterrado nos seus cérebros minúsculos e sujos de terra do sítio?” Saímos dali bem rápido para evitar linchamento por parte da galera das ondas, logo de cara. Mas John, com meio corpo fora do veículo em movimento prosseguiu: “Não tem frango não, mas tem galinha… sua mãe. Fumeira morfética!”. Por sorte não os encontramos mais pela orla marítima. Surfistas são muito unidos e certamente a coisa engrossaria para o nosso lado já bem grosso.

Havíamos fechado por telefone e pago adiantado uma arriscada transação com um camping. Mas a coisa era quente e o lugar muito bom e bem localizado. Montamos nossa grande barraca – também emprestada – com a mesma dificuldade encontrada na estrada até ali. Falta de experiência em tudo resulta em sofrimento desnecessário generalizado. Ainda estava escuro, já estávamos bem alcoolizados e, por tais dificuldades, era cano sobrando para todo lado e a lona indescritivelmente torta. A tarefa mais parecia um indecifrável enigma do antigo Egito.

Tudo montado – nas coxas – e lá foi Binga cuidar da instalação elétrica da nossa favelinha. Teoricamente era quem mais entendia de “luz”. A missão aparentemente era simples: só umas lâmpadas e uma tomada para o rádio gravador, mas sei lá o que rolou. Uma estrondosa explosão e um clarão enorme seguiram-se no poste central de energia e a força acabou em geral. Mas não somente no camping, e sim no litoral Norte todo. Porém, por estranha coincidência, somente nossa barraca ficou acesa…

Claro que isso chamou, de forma negativa, a atenção de todos os muitos outros turistas ali presentes. O lugar estava lotado ao extremo. Carnaval na praia sempre foi assim. E a coisa ficou desse jeito por um tempo: se nossa barraca ficasse abastecida por energia, todo o resto do planeta litorâneo ficava sem esse item essencial – escolas, hospitais, creches etc. Mas depois de mais alguns estouros, choques fortes e faíscas pirotécnicas, tudo deu certo.

Após os devidos acertos sob estridentes gritos de “burro” entre nós mesmos, muita cerva morna garganta abaixo e acomodação montada, descansamos só um pouco e voamos para a praia, a ansiedade por curtir não dava espaço ao sono. A essa altura o sol já estava bem forte. E foi lá, na linda areia branca contrastante ao exuberante verde mar, que percebemos porque a moça das informações desencontradas havia nos chamado de caipiras logo de cara e em poucos minutos de bate boca, sem ao menos nos conhecer.

Como o camping era perto do “fervo” e estávamos de saco cheio de ficar dentro daquela lata de sardinha com quatro buracos no teto, escondemos nosso possante para menos vergonha e saímos a pé para a balada. Vislumbramos o verdadeiro paraíso terrestre em poucos metros caminhados. A praia, os bares, os quiosques e o calçadão da famosa avenida beira mar estavam entupidos de gente. Gente bonita trajando caríssimas grifes por todos os lados. “Point de playboy” é assim mesmo. Tudo mais parecia um grande desfile de moda ao ar livre. E foi exatamente em meio a esse espontâneo desfile de moda que percebemos de imediato o quanto nossos óculos escuros falsificados eram ridículos e como nossas bermudas sem marca – feitas pelas nossas mães – eram cafonas. A moça das informações tinha mesmo razão… To be continued.

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O Jardim das Lendas – Interior na praia (Parte I)

A saga cômica e maluca do bairro araraquarense Jardim Martinez

ubatuba

por Junião

As mulheres dizem que jamais se esquecem do primeiro sutiã. Melindrosas coisas de mulher. Mas nós, cabras machos do Martinez, por motivos muito mais marcantes que um simples “sutiã”, jamais nos esquecemos da primeira viagem juntos para a praia. Isso sim foi determinante nas nossas passagens de moleques sem pêlos para valentes barbados prontos para o mundo.

Eu – o encapetado, o lendário Binga, o terrível Josoel John Igor Ride, o sossegado Charles e o gigante Nizão não fomos tão heróis quanto os homens que sapatearam na lua em julho de 1969, mas também não ficamos muito atrás no quesito bravo enfrentamento do desconhecido sem os devidos recursos de conforto e segurança.

Enfim a tão sonhada e, até então, distante maioridade havia chegado. Maioridade, sinônimo de liberdade! Habilitações nas mãos e o horizonte a espera. Primeiro destino lógico após muitas rodadas pelas redondezas: praia, lógico! Mais precisamente Ubatuba/SP, na época o mais chique point da chique galera descolada, tatuada e eternamente bronzeada – o que não era o caso da nossa turma. Muito pelo contrário, éramos caipiras natos…

O bom senhor Alécio, pai do Nizão, gentilmente nos emprestou para e empreitada um carro que ele usava só para ir pescar. Era um Fiat 147 de cor indefinida, na época já bem destruído. Para se ter idéia da situação geral do bólido, no lugar do imprescindível estepe, havia uma gaiola. Lixeiros sim deveriam organizar blitz para interceptar aquilo e solicitar documentação e demais obrigatoriedades, não os policiais. Haviam carros bem melhores nas garagens das nossas casas, mas como ainda não éramos dignos de confiança em termos de volante – aliás, acho que não somos até hoje – não tivemos nenhuma outra opção.

Na noite do “lançamento”, uma empolgante quinta feira véspera de carnaval, lotamos o veículo com mochilas, barraca grande, caixas de isopor, comida e muita cerveja em lata – para economizar grana lá -, nos esprememos como contorcionistas no pequeno espaço interior e partimos diante de desanimadoras frases dos nossos familiares: “não conseguirão chegar lá”.

O pobre carrinho grudou no chão em virtude do peso excessivo e da suspensão “ferro com ferro”, por tais motivos o pára-choques traseiro (caindo) e o tanque de combustível metálico foram se arrastando pelo asfalto e soltando faíscas noite afora. Quando vimos a situação real até demos um pouco de razão às frases dos nossos pais, mas nossos ânimos sim eram os importantes naquele momento de sonhada e desejada glória, e eles estavam em ebulição máxima. E outra: Deus sempre protege os loucos! Até mesmo os usuários de Fiat 147…

O primeiro susto foi simples: havíamos emprestado um bagageiro tubular de teto horrível e enferrujado para ganhar espaço externo no transporte das tralhas. Adaptamos o bicho conforme os improvisos permitiram e boa, parecia estar tudo beleza. Porém, um solavanco inesperado na estrada fez os ganchos de sustentação “enterrarem na lata podre” e surgirem como espadas de caixas de mágicos, próximas as nossas cabeças, tudo em pleno movimento. Gritaria e rápido descontrole direcional seguiram-se, mas tocamos o pau daquele jeito mesmo, com o tal bagageiro achatado na lata do teto. Isso logo nos dois quilômetros iniciais. Haviam ainda, teoricamente, mais de 500 a serem percorridos…

Quinhentos quilômetros de acordo com mapas e informações gerais, mas infelizmente cartas de motorista jamais foram e jamais serão sinônimo de capacidade e experiência. Antes de “achar” Ubatuba nós rodamos bastante perdidos por esse mundão de meu Deus. Passamos por Curitiba… Campo Grande… Belo Horizonte… e assim por diante. Parecia que estávamos verdadeiramente procurando pelo reino perdido de Atlântida, em virtude da dificuldade para encontrar. Foram muitas milhas inúteis. Imprevistos normais na vida de todos os iniciantes em qualquer tarefa.

A hoje fantástica rodovia D. Pedro I na época estava ainda em construção, mau sinalizada, repleta de tratores por todos os lados e com trânsito complicado – mesmo na madrugada. Os faróis do carro eram tão fracos que algum de nós precisava descer toda hora para ver se estavam mesmo acesos – nota: essa verificação de luminosidade só era possível se feita com uma lanterna ou tocha de fogo para iluminar o próprio farol. Luz para se enxergar a luz… Pilotando às escuras tiramos centenas de arriscadíssimas “finas” involuntárias de coisas mil – gatos, cachorros, andarilhos, caminhões, trabalhadores, placas, morros e demais seres e objetos. Mas “acho” que não matamos nada. Todos esses fatores adversos nos fizeram percorrer, inexplicavelmente, até mesmo trechos de terra em busca do litoral. Mas tudo era festa, e a festa estava só no início. To be continued.

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